Chernobyl | Crítica

Minissérie da HBO consegue narrar os eventos do desastre ao mesmo tempo em que pinta retrato de época

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Chernobyl | Crítica

O desastre de Chernobyl ocorreu há mais de 30 anos, porém, suas consequências continuam a inspirar um misto de terror e fascinação naqueles que passam a conhecer a história mais a fundo.

Pensando em proporcionar esse mergulho para mais pessoas, a HBO produziu a minissérie Chernobyl que, em cinco episódios, dramatiza os fatos que ocorreram na cidade de Pripyat em 1986, ao mesmo tempo em que pinta um retrato interessantíssimo do zeitgeist, o espírito do tempo.

Esse retrato é um dos ponto alto de Chernobyl, que dá à série uma grande verossimilhança mesmo naqueles momentos no qual o roteiro foge um pouco da pura realidade dos fatos. Isso é demonstrado de diversas maneiras, seja de maneira grandiloquente, mostrando as jogadas políticas do Kremlin, seja em algo pequeno, como a arquitetura dos prédios de Pripyat, que refletia diretamente os valores da União Soviética.

Contada a partir do ponto de vista de núcleos independentes de personagens, Chernobyl consegue mostrar como o desastre afetou diversos grupos sociais distintos. É interessante ver como o núcleo científico-político da série, que tentava investigar as causas da explosão e diminuir ao máximo as consequências, reage de maneira completamente diferente aos médicos que atenderam as vítimas, que, por sua vez, lidam com a situação de maneira diferente em relação aos bombeiros envolvidos no primeiro chamado ao incêndio.

E é aí que o trabalho do roteirista e showrunner Craig Mazin brilha, ao mostrar para o público que não existe uma única história de Chernobyl, e sim milhares delas.

O roteiro com diversas linhas narrativas aliado a um elenco de peso, que inclui nomes como Jared Harris (Fringe), Emily Watson (A Teoria de Tudo) e Stellan Skarsgard (Vingadores), faz de Chernobyl uma produção muito acima da média do que é visto normalmente TV. Harris, que interpreta o físico Valery Legasov, líder das investigações do desastre, rouba a cena, construindo seu personagem de maneira a torná-lo um herói relutante e trágico, que sabe que, apesar de todos os esforços, o estrago já está feito.

É através de Legasov que o roteiro de Mazin desenvolve a maior parte dos temas mais amplos de Chernobyl, principalmente a discussão acerca da negação dos dados científicos por parte de governantes e as terríveis consequências que isso acarreta. É no físico também que o showrunner tenta colocar em cheque a visão dualista e maniqueísta de mundo, presente com ainda mais força nos dias de hoje, tecendo duras críticas ao Socialismo Soviético e ao neoliberalismo americano.

Um outro grande destaque de Chernobyl é a trilha sonora. Composta por Hildur Guðnadóttir a partir de sons de uma usina nuclear na Lituânia, as músicas ajudam a aumentar o desconforto nas cenas de maior tensão, principalmente naquelas em que os efeitos da radiação no corpo humano são mostrados de maneira explícita.

Chernobyl se tornou a série mais bem avaliada no IMDb, superando títulos como Breaking Bad e Band of Brothers. É algo que ainda vai render muitas discussões entre fãs e críticos, mas é inegável que a minissérie é uma produção de altíssimo nível e já tem lugar garantido em quase todas as listas de melhores do ano de 2019.

Uma história difícil de ser assistida, mas extremamente necessária para fazer valer a máxima de que “quem não conhece a História, está fadado a repeti-la”.