Cemitério Maldito | Crítica

Adaptação tem ótimo elenco e ideias, porém, derrapa no roteiro e no excesso de jump scares.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Cemitério Maldito | Crítica

Stephen King é lembrado tanto por seu talento em produzir histórias arrepiantes quanto pela invejável frequência com que faz isso — prolífico, já publicou mais de 60 romances e duas centenas de contos, sem falar nos roteiros e obras de não-ficção. Muitas vezes, no entanto, ele deixa de receber o merecido crédito por sua técnica. Dono de uma prosa fluida e acessível, o autor demonstra habilidade única em criar ambientações e personagens críveis e envolventes.

Do ponto de vista analítico, um de seus trabalhos mais interessantes é Sobre a Escrita. Misto de memórias e declaração de amor ao ofício, o livro traz um capítulo recheado de dicas para o aspirante a escritor, que, além de poderem ser aplicadas na prática, revelam muito sobre o estilo e as idiossincrasias de King. Em um trecho, por exemplo, ele afirma que “o advérbio não é seu amigo”. Embora reconheça a dificuldade de evitá-los por completo, o autor defende que o uso excessivo desses modificadores é sinal de timidez, insegurança, medo de não conseguir expressar com exatidão aquilo que se deseja. A ideia é que, em uma narrativa bem elaborada, o contexto, na maioria das vezes, torna o advérbio dispensável. “Quando você usa [a atribuição de diálogo] ‘ele disse’, o leitor saberá como ele disse — rápida ou lentamente, alegre ou tristemente”, explica, concluindo com uma metáfora sobre parcimônia: “seu personagem pode estar se debatendo em um pântano; caso ele esteja, vá fundo, atire uma corda… mas não precisa nocauteá-lo com 90 pés de cabo de aço”.

Os realizadores de Cemitério Maldito bem que poderiam se valer dessa lição — chegaremos lá; antes, porém, o básico. O filme adapta, com certa fidelidade, o romance Pet Sematary (publicado no Brasil com o título O Cemitério), de King. Em busca de uma rotina mais tranquila, o dr. Louis Creed (Jason Clarke) se muda para a pequena cidade de Ludlow com a esposa, Rachel (Amy Seimetz), e os filhos, Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo e Lucas Lavoie). Logo, eles fazem amizade com o novo vizinho, Jud (John Lithgow). Uma série de tragédias, incluindo a morte de um estudante da universidade onde o médico trabalha e o atropelamento do gato da família, Church, os coloca às voltas com antigos poderes sobrenaturais.

O ótimo elenco é um dos pontos positivos, com destaque para Clarke e a pequena Jeté. Suas performances são responsáveis por segurar a atenção em muitos momentos. O longa-metragem também supera a versão de 1989 em outros aspectos. É o caso da reintrodução do Wendigo — ausente no primeiro filme, a criatura folclórica, responsável por corromper a terra outrora pertencente aos povos nativos, contribui para a construção do clima sombrio. Em vez de ter uma presença explícita como no livro, aqui a entidade é apenas sentida como algo à espreita, que se manifesta sob a forma de sussurros e sons na floresta.

Outro grande acerto é estabelecer de modo eficaz a relação de Ellie e Jud, por meio de interações que, apesar de breves, representam alguns dos raros respiros de leveza no decorrer do longa. Ponto-chave pouco desenvolvido na adaptação anterior (que, curiosamente, teve script do próprio escritor), a afeição entre a menina e o vizinho justifica a atitude que ele toma mais tarde e que movimenta toda a trama.

Ainda assim, o roteiro de Jeff Buhler, escrito a partir de argumento de Matt Greenberg, acaba falhando em algumas abordagens. Em especial, no tratamento dado ao protagonista. Louis é apresentado como um homem racional confrontado com ameaças espirituais. Sua jornada é moldada em um tópos das tragédias clássicas: o do herói que repetidamente ignora os sinais e, com isso, encontra a ruína. No entanto, o único aviso que ele recebe no filme é dado pela visão do garoto que não conseguiu salvar, logo no primeiro ato. O alerta final e decisivo, que no romance é representado pela história que Jud conta a respeito de Timmy Baterman, o rapaz enterrado no terreno amaldiçoado, é simplesmente descartado pelo roteirista, que o reduz a breve referência em uma pesquisa na internet. Assim, o mergulho de Louis em um mundo que seu “cérebro de doutor nunca compreenderá” parece brusco e pouco convincente.

Há alterações que parecem ter sido feitas com o único intuito de diferenciar o longa de sua fonte. Por exemplo, dois personagens têm seus papéis invertidos, o que supostamente deveria surpreender quem leu o livro ou assistiu a primeira adaptação. A troca, todavia, é facilmente antecipada por qualquer espectador mais atento (ou que tenha visto os trailers) e acaba não tendo nenhum efeito prático. Já a mudança no final é apenas equivocada — além de ter seu impacto sensivelmente reduzido, a nova conclusão abre mão do tom desalentador original em favor de um conceito que beira o cômico.

O que nos traz de volta aos advérbios. Os diretores Kevin Kölsch e Dennis Widmyer parecem pouco confiantes no material que têm em mãos ou na atmosfera sinistra que o script se esforça em criar. Isso explicaria sua insistência em recorrer aos jump scares. Não há nada inerentemente errado com eles — são elementos válidos na linguagem dos filmes de terror e, quando bem empregados, podem até servir a propósitos narrativos. O primeiro que o filme oferece, por exemplo, funciona para apresentar os perigos da estrada em frente ao novo lar dos Creed, eliminando assim a necessidade de um diálogo expositivo a esse respeito. A partir daí, entretanto, os sustos são apresentados em um ritmo tão constante e previsível que logo se tornam exaustivos e, por fim, dispersivos.

Cemitério Maldito tinha potencial para ser um ótimo longa. Pena que os cineastas optaram por enterrá-lo sob 90 pés de cabo de aço.