1ª temporada de Castlevania: Noturno prepara terreno para história visceral | Crítica

Série animada mantém o legado do antecessor, mas não deixa de encontrar uma voz própria com trama brutal e personagens densos

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
1ª temporada de Castlevania: Noturno prepara terreno para história visceral | Crítica Castlevania: Noturno/Netflix/Divulgação

Após o imenso sucesso da série animada de Castlevania com a crítica especializada e o público, não é surpresa que a Netflix quis esticar esse universo com mais uma produção. E, assim, Castlevania: Noturno foi anunciado com a proposta de dar continuidade a esse legado — além de um peso enorme nos ombros de estar à altura do antecessor.

Noturno é ambientado na França de 1792 (ou seja, cerca de 300 anos após os acontecimentos de Castlevania) e tem Richter Belmont como protagonista. Em meio à Revolução Francesa, os vampiros voltaram a se reunir sob o comando de uma misteriosa Messias, a condessa Erzsebet Bathory, e começaram a assassinar a população pobre para colocar em prática um plano de dominar a Europa.

Com esse cenário, Richter é o último descendente vivo dos Belmont, família que se especializou na caça de vampiros por gerações, e precisa se envolver com vários personagens (alguns conhecidos e outros inéditos) como Maria Renard, Tera Renard, Olrox e Annette para lidar com Bathory.

Não estranhe se a premissa parece distante e, ao mesmo tempo, familiar da série que deu origem ao derivado. Essa é uma sensação constante, que reflete em toda a primeira temporada porque Noturno mantém algumas raízes do antecessor, mas encontra uma voz própria no meio de tudo isso.

Castlevania: Noturno começa com uma cena de introdução de ritmo acelerado (e de tirar o fôlego) para estabelecer o clima da temporada (Imagem: Netflix/Divulgação)

De forma bastante livre, Castlevania: Noturno é inspirado nos jogos clássicos Rondo of Blood e Symphony of the Night, mas também espere por uma pitada de Bloodlines. Só não espere por fidelidade, porque a animação toma seu próprio rumo e até “remolda” a personalidade e as motivações de alguns rostos conhecidos.

Um exemplo é Olrox (sim, aquele que é apenas um chefe passageiro de SotN), que é a peça mais intrigante e imprevisível da trama por ser uma charada ao espectador. Dentro da série, o vampiro foi expandido de forma inteligente, apresentando mais camadas (apesar de duvidosas…) de personalidade e até uma descendência azteca.

Um tratamento parecido, mas mais drástico acontece com Annette. A personagem foi mudada praticamente por completo para aprofundar temas sobre escravidão e descendência africana — uma vez que, em Noturno, ela é uma feiticeira poderosa, que escapou de uma escravidão imposta por vampiros no Caribe.

Assim, a inspiração da série animada nos jogos para na ideia de apenas “pegar emprestado” rostos e nomes conhecidos da franquia — o que não é uma surpresa, uma vez que Castlevania também teve uma abordagem nessa linha.

Maria Renard é até um retrato relativamente fiel aos jogos. Apesar de ser ativa em um movimento rebelde, ela ainda é uma feiticeira bem jovem que tem muito a aprender (Imagem: Netflix/Divulgação)

Com um elenco tão diverso de personagens, o ponto forte de Castlevania: Noturno fica para a exploração de vários arcos narrativos ao mesmo tempo, cujas histórias se entrelaçam, mas abordam temas totalmente discrepantes.

Assim, o roteiro de Clive Bradley (Trapped) é bastante enxuto e direto, com um ritmo levemente acelerado para tantas introduções e informações serem apresentadas ao espectador em um curto período de tempo, sem deixá-lo perdido. A dinâmica dá certo dentro da proposta da série animada, que mostra os dois lados da história — tanto o de Richter e companhia quanto dos vampiros de Bathory.

É então que entramos no aspecto vilanesco de Noturno. Ao contrário de Castlevania (em que alguns momentos podíamos entender e até concordar com as motivações de Drácula), a rivalidade entre bem e mal é mais forte e aparente na nova série. Erzsebet Bathory é odiosa em todos os sentidos e não dá espaço para ambiguidade. A sensação que fica é que o roteiro poderia ter explorado melhor a vilã, sem limitá-la a uma única faceta.

A antagonista ainda é introduzida de forma gradual durante a temporada, sendo referenciada quase como uma figura mística pelos outros personagens, mas seu arco só realmente mostra ao que veio nos episódios finais.

Em alguns momentos, principalmente com os arcos de Maria e de Annette, a trama aborda a ideia de que nem apenas os vampiros podem ser monstros… (Imagem: Netflix/Divulgação)

Com apenas oito episódios, a história da primeira temporada de Castlevania: Noturno tem um tom maduro, mas ainda encontra espaço para diálogos bem humorados, graças a um Richter carismático e deliciosamente sarcástico. E fique tranquilo, há muitas, mas muitas cenas de ação com gore, violência e sangue para todo lado.

É bem difícil assistir, falar ou debater sobre Noturno sem traçar comparações com Castlevania. Há várias referências à série original na trama, além de uma baita surpresa importante (que não falaremos sobre para não dar spoilers) — então é um derivado que depende do antecessor e foi criado para quem já é fã. Além disso, é também difícil não sentir uma diferença de estilo entre as duas produções.

Em poucas palavras, Noturno não é tão refinado quanto Castlevania, mas isso acontece porque o antecessor estabeleceu um padrão que é realmente alto e difícil de ser batido. Assim, a nova série está longe de ser fraca. Pelo contrário! Ela consegue empolgar o espectador com uma história brutal, cheia de amarras e bastante potencial para o futuro em um universo familiar — além de recapturar a magia do original.

Drolta é uma vampira que atua como braço direito de Bathory, sendo a figura antagonista mais presente da primeira temporada (Imagem: Netflix/Divulgação)

A estética de Castlevania: Noturno permanece em território 2D, com uma leve inspiração em animes e elementos em CGI para intensificar as cenas de ação. Apesar da permanência da Powerhouse Animation como principal estúdio de animação, sob a direção de Sam e Adam Deats, o visual pode parecer ligeiramente diferente aos olhos mais atentos, uma vez que traços de personagens ganham mais intensidade em certas cenas, adotando um aspecto mais “cru”. Isso pode até causar estranheza em alguns momentos, mas que são poucos e não estragam a experiência como um todo.

Por fim, outro ponto que não pode ser esquecido quando o assunto é Castlevania é o elenco original de vozes. Edward Bluemel (Sex Education) faz um excelente trabalho com Richter, transmitindo a sensação de que ele esconde traumas por trás da cara de durão e equilibrando bem o tom dramático e o humor em cada cena.

Outros destaques ficam para Zahn McClarnon (Fargo) no papel de Olrox, que é imponente e misterioso em cada fala, e Nastassja Kinski (Paris, Texas) como Tera Renard (mãe de Maria), que adiciona uma excentricidade única à personagem. Franka Potente (Corra, Lola, Corra) como a vilã Bathory e Sydney James Harcourt (Hamilton) como o cantor de ópera Edouard também não ficam para trás.

Noturno mostra ao que veio com uma primeira temporada que não é perfeita, mas recaptura a essência do antecessor e empolga pelo que está por vir (Imagem: Netflix/Divulgação)

Entre tripas, muito sangue e mordidas bem dadas, Castlevania: Noturno mantém o legado da franquia com pegada madura e sombria, personagens complexos e uma história brutal. Mas não deixa de encontrar uma voz própria, que se distancia da série da qual se originou para andar com as próprias pernas — e a caminho de um futuro bastante promissor.


Castlevania: Noturno está disponível no catálogo da Netflix.

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