Castlevania – 3ª temporada | Crítica

A série animada da Netflix prova mais uma vez ser um exemplo de como adaptar jogos em outras mídias

Tayná Garcia Publicado por Tayná Garcia
Castlevania – 3ª temporada | Crítica

Adaptar a história de um jogo em filme ou série é sempre algo que gera polêmica com os fãs — e não à toa, uma vez que já vimos inúmeras produções que tentaram fazer uma boa adaptação e erraram feio.

No meio disso tudo, porém, existem algumas produções que dão uma fagulha de esperança que esse cenário possa mudar para melhor. E a série animada de Castlevania, produzida pela Netflix, provou mais uma vez o motivo de fazer parte dessa leva com a terceira temporada, que, surpreendentemente, foi o ápice da animação até o momento.

Um recomeço para a animação

Drácula se foi, mas isso não quer dizer que o mundo está a salvo — pelo contrário. Agora, as criaturas da noite estão dispersas e outros vampiros gananciosos querem lutar pelo topo da cadeia alimentar.

Isso estabelece um novo cenário para a animação, que acaba sendo guiada por quatro arcos principais, nos quais Belmont e Sypha caçam monstros que atacam aldeias, Alucard permanece nas ruínas do castelo de seu pai, Isaac retorna à Europa para vingar Drácula e, finalmente, Carmilla se junta ao conselho de vampiras para planejar a dominação do mundo.

Os arcos são intercalados e bem amarrados entre os episódios com um ritmo que toma seu próprio tempo para desenvolver os recomeços de cada um deles, sem poupar em diálogos filosóficos ou bem-humorados, já característicos da série. A introdução de novos personagens — alguns familiares para os fãs dos jogos, como o viajante do tempo Saint Germain — são bem feitas e sutis, expandindo o universo da animação sem jogar muitas informações ao mesmo tempo.

A série animada continua a acompanhar a cronologia dos games, mas de forma mais tímida do que as temporadas anteriores. Isso porque se inspira em alguns elementos de Castlevania: Curse of Darkness, mas mantém uma quantidade maior de criações originais — o que gera um resultado surpreendentemente positivo. A trilha sonora já é charme à parte, que brilha principalmente nas cenas de luta e parece ter saído direto de clássicos da franquia, como Symphony of the Night e Rondo of Blood.

A pegada madura das temporadas anteriores continua e ainda é intensificada, não poupando em cenas com linguagem pesada, nudez, sexo, violência e gore. Isso não é refletido apenas nesse conteúdo mais “forte”, mas também nos diálogos que, muitas vezes, abordam temas e questionamentos mais densos, como luto, morte, religião, crueldade humana e dilema entre o bem e o mal.

A beleza por trás do grotesco

O visual, ainda realizado pelo estúdio da Powerhouse Animation, continua com a mesma qualidade de forma geral e reforçando o tom maduro da série, destacando tons escuros e, principalmente, o sangue nas cenas mais violentas.

Os monstros são terríveis, feios e nojentos — e isso é muito bom! Para destoar das ambientações sombrias, a aparência dos personagens explora uma paleta de cores mais vibrante, o que acaba refletindo na personalidade de cada um. Isso é mais evidente ainda com Carmilla e as vampiras do conselho (Lenore, Striga e Morana) que, apesar de trabalharem juntas, são completamente diferentes.

No entanto, existem alguns deslizes em certas cenas de luta. Normalmente, quando há muito movimento, as animações ganham um aspecto dinâmico e cinético, agradável aos olhos — o que é o caso do arco de Alucard. Mas, quando o mesmo acontece com Sypha e Belmont em alguns momentos dos episódios finais, animações levemente disformes nos rostos dos personagens aparecem. Não é algo que atrapalhe a experiência como um todo, mas são detalhes que destoam da qualidade geral da série animada.

Uma série que não deve nada aos jogos

Mesmo sem a presença de Drácula, o grande alicerce das duas primeiras temporadas, a animação mostrou que tem potencial em explorar mais mitologias da franquia e ainda misturá-las com elementos inéditos que fazem sentido dentro desse universo. Tudo isso em um ritmo agradável, que deixa o espectador ansioso para devorar o próximo episódio.

Os arcos principais acabam sendo bem amarrados e parcialmente resolvidos, deixando pontas soltas o suficiente para embalar mais uma temporada, mas sem deixar os fãs espumando por conta dos odiados “cliffhangers”.

Essa combinação faz de Castlevania um exemplo a ser seguido quando se trata de adaptações de jogos em outras mídias, justamente por respeitar as histórias originais e ainda conseguir entregar algo novo que, diga-se de passagem, é bem diferente do que geralmente se encontra no catálogo da Netflix. A terceira temporada série apenas reforçou o que eu já sentia antes, de que esta é uma das poucas produções baseadas em jogos que realmente merecem nossa atenção.