Carta ao Rei | Crítica

Sem pretensões épicas, série oferece um passeio pela fantasia — com alguns tropeços.

Daniel John Furuno Publicado por Daniel John Furuno
Carta ao Rei | Crítica

Embora tenha sempre tido posição de destaque na literatura, não faz tanto tempo assim que a fantasia se tornou recipiente de pesados investimentos por parte da indústria do cinema e da televisão. O exemplo recente de maior destaque é, claro, Game of Thrones, que reafirmou o apelo universal do gênero, além de trazer uma percepção mais clara de sua força junto ao público adulto. Com o fim da série, muito se especulou acerca do vácuo deixado, com um punhado de títulos se candidatando a preenchê-lo — e tome personagem taciturno, ameaça sobrenatural e cena de violência e nudez para tentar emular a adaptação da obra de George R.R. Martin.

Enquanto isso, outra faixa etária se manteve órfã de uma franquia para chamar de sua. Não é difícil enxergar as razões pelas quais a fantasia é tão atraente para o público infantojuvenil; afinal, ela concede a oportunidade de escapar para um novo universo, desconectado da realidade, e, paradoxalmente, gera identificação por meio de alegorias que remetem a dilemas cotidianos típicos da idade. Apostando nesse filão, a Netflix lança Carta ao Rei, série baseada no romance homônimo da holandesa Tonke Dragt, publicado originalmente em 1962 e que, oportunamente, acaba de ganhar nova edição brasileira.

Prestes a se sagrar cavaleiro, Tiuri (Amir Wilson) é incumbido de uma missão envolvendo o item do título, o que o coloca em rota de colisão com o ambicioso príncipe Viridian (Gijs Blom), obcecado com uma antiga profecia. Ao longo da jornada, o caminho do rapaz cruza com o de um grupo de jovens, bem como o da engenhosa Lavinia (Ruby Ashbourne Serkis, filha de Andy Serkis, que faz uma breve participação como pai da garota).

Escrita por um time de roteiristas liderado pelo showrunner William Davies, a trama é bastante direta, sem grandes floreios. Há um plot twist, que vai sendo preparado com alguma ou nenhuma sutileza, dependendo da ocasião; como consequência, a revelação surge menos como surpresa do que como confirmação de um palpite. Intencional ou não, essa abordagem funciona, uma vez que está em concordância com o próprio desenvolvimento dos personagens envolvidos.

De modo similar, os arcos dos protagonistas alcançam os resultados desejados, ainda que não sejam lá muito inventivos. Tiuri tem motivações estabelecidas com clareza logo no início: como qualquer jovem, ele se sente inadequado, incerto de seu lugar no mundo, o que, aqui, decorre, em grande parte, do preconceito que sofre por causa de sua origem e da problemática relação com o padrasto (David Wenham); as resoluções apresentadas são adequadas. Em contrapartida, Lavinia não conta com tanta sorte: a ideia da máscara de determinação e independência para esconder as inseguranças é eficaz, porém, seu arco dramático acaba prejudicado pelo fato de o momento da virada não acontecer diante das câmeras.

Por sua vez, os personagens de apoio podem não ser exemplos de profundidade, mas alguns conseguem explorar, em certa medida, os lugares-comuns nos quais são calcados — casos dos pares Arman (Islam Bouakkaz)/Iona (Thaddea Graham) e Foldo (Jack Barton)/Jussipo (Jonah Lees). Já o príncipe, apesar de se mostrar um antagonista genérico, ao menos oferece a perspectiva do vilão que se enxerga como herói, mais interessante que a do malvado cartunesco.

Do ponto de vista técnico, a palavra que melhor descreve a série é “correta”. Filmada na República Tcheca e na Nova Zelândia (o que rende algumas paisagens familiares para os fãs de O Senhor dos Anéis), tem direção de Felix Thompson, Charles Martin e Alex Holmes, que se alternam entre os episódios — competentes, sem grandes arroubos de personalidade. Talvez os efeitos visuais sejam o único escorregão neste departamento, com sequências que chamam a atenção pelos motivos errados.

Todavia, a maior falha é o confronto final, com evidentes problemas de roteiro (sem uma proposta original nem a audácia de abraçar o clichê, os eventos vão simplesmente se sucedendo) e de execução (a impressão é que o diretor não sabia muito bem como traduzir visualmente o que havia no script). O resultado é uma resolução fria e anticlimática.

Como não poderia deixar de ser, o epílogo deixa aberta a possibilidade de uma segunda temporada, que pode se basear na continuação do livro, Geheimen van het Wilde Woud (em tradução livre, “Segredos da Floresta Selvagem”, ainda inédito no Brasil), ou trilhar um caminho completamente diferente da fonte, aprofundando-se nos elementos novos que foram inseridos.

Carta ao Rei não é nenhum épico de fantasia. É, antes, uma série despretensiosa, que convida o público infantojuvenil a um passeio pelo gênero. E cumpre o que promete.