Call of Duty: Black Ops Cold War | Review

Uma mexida superficial na manjada e deliciosa fórmula que traz diversão fragmentada

Gilsomar Livramento Publicado por Gilsomar Livramento
Call of Duty: Black Ops Cold War | Review

Todo ano a franquia Call of Duty da Activision tende a despertar o monstro do hype nos fãs. Mesmo reciclando sua boa e velha proposta, que ainda se prova o mais puro suco do sucesso. Afinal (quase) sempre o jogo do momento bate recorde de vendas, até quando vai “mal” os números são absurdos.

Pra quem acompanha há muito tempo, dificilmente vai ser impactado por uma campanha tão marcante quanto a de CoD4: Modern Warfare (2007), que trouxe uma narrativa diferenciada, intensa, protagonizada por diferentes personagens e pontos de vista. Um marco no gênero FPS que foi superado por sua continuação, CoD: Modern Warfare 2 (2009). Claro, é o multiplayer que mantém a brincadeira divertida, mas há outros títulos da série que são lembrados por outros aspectos, modalidades e ideias. Claro, um novo jogo tende a atrair novos jogadores e tentar manter os de longa data.

Call of Duty: Black Ops Cold War segue a ideia. Ele parece inovar em pequenas coisas em um primeiro momento, mas na prática a Treyarch aposta no seguro ao reunir elementos que deram certo no passado. Também é um jogo continuação direta de CoD: Black Ops (2010), marcado como um dos grandes capítulos da franquia.

O jogo em si não tem uma modalidade que o defina ou seja o seu grande destaque, mas ele ainda reúne experiências interessantes com seus altos e baixos: campanha, multiplayer, zombies e warzone. Cada um pode ser baixado e instalado de forma independente, no caso da compra digital, para não ocupar espaço e levar o jogador direto ao que mais lhe interessar. Mas vamos a um passeio em cada ponto.

Os Homens do Presidente

A Campanha, como o título do jogo entrega, gira em torno da Guerra Fria, mais precisamente na década de 1980, durante o mandato do presidente Ronald Reagan. Os EUA e o estilo de vida americano estão sob a ameaça de Perseus, um agente soviético que se apoderou de uma bomba. O presidente autoriza uma operação secreta, seguindo aquela pegada onde o fim justifica os meios. Figuras conhecidas como os agentes Alex Mason, Frank Woods e Jason Hudson (do primeiro CoD: Black Ops), além de introduzir o inédito Russel Adler.

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O jogo tem cenas bonitas e retrata de modo interessante sua época ao misturar diversos vídeos documentais reais com ficção para prender sua atenção. Como é de praxe, a campanha abre com uma missão que vai do passeio no parque à insanidade com explosões e destruição. É o tipo de ação que tornou a franquia empolgante, mas também se tornou sua maldição, já que o nível do absurdo parece se elevar a cada novo episódio. As coisas até que ressoam bem com a premissa neste caso, mesmo com seus clichês, conspirações e reviravoltas se desatando de forma desnecessariamente complexa para tentar surpreender — ser complexo não significa ser bom.

A novidade é que o jogo permite “criar” um personagem, mas a personalização se resume a escolher um nome e características do seu histórico para gerar só um bônus de jogabilidade. Ideias que o próprio jogo descarta, apesar de soar interessante.

Já a campanha traz uma mistura de missões diferentes, transitando entre momentos de ação intensa, como na guerra do Vietnã, e missões mais contidas de espionagem na Alemanha Oriental, em que você se infiltra no prédio da KGB, usa mecânicas de arrombamento de fechadura e solução de enigmas. Uma quebra inesperada, mas bem-vinda, no ritmo alucinado que um CoD costuma ter. Ainda que nas missões de espionagem baste um erro para tudo descambar pro caos, dedo no gatilho e correria. Também há uma missão de infiltração cheia de arcades e em alguns deles dá para jogar clássicos da Activision como Barnstorming, Enduro, Pitfall!, River Raid, Kaboom!, Fishing Derby e Grand Prix.

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A campanha traz algumas linhas de diálogos que permitem moldar o progresso da missão. Nesses momentos suas escolhas impactam no destino de personagens e podem levar a três finais distintos. Mesmo assim, a campanha é extremamente enxuta, cerca de quatro horas, com alguns coletáveis (arquivos de inteligência e evidências que dão acesso a objetivos adicionais) para instigar a exploração, elementos que servem de incentivo para repetir missões e jogar de maneira diferente. Mas não há nada aqui que surpreenda, especialmente se tiver jogado o primeiro CoD: Black Ops, pois é fácil imaginar o que vai acontecer.

Chamando para a guerra… De novo

O pilar de sustentação continua sendo o modo Multiplayer. Quando você entra pela primeira vez, surgem cenas que se integram à premissa da campanha, além de mostrar algumas áreas dos mapas disponíveis. Tem aquele clima de novidade no ar, mas não demora para bater a familiaridade e entender os padrões de sempre, mas que ainda surpreendem bastante quem não jogou um título da franquia nos últimos anos.

A Treyarch setorizou a experiência para direcionar cada tipo de jogador, seja aquele que quer uma guerra massiva com 40 jogadores, o competitivo de mata-mata frenético nos modos de combate de 6×6, ou oferecer uma ação intermediária de 12×12 com ritmo mais tático. A quantidade de jogadores depende da modalidade de sua escolha, tendo opções como Mata-Mata em Equipe, Zona de Conflito, Dominação, Baixa Confirmada, Escolta VIP, Controle, Contra Todos e Localizar e Destruir. Fora esses, entram três “novas” modalidades.

A primeira é Bomba Suja, onde várias equipes, com quatro integrantes cada, se enfrentam em um mapa aberto cuja a missão é coletar urânio (espalhado em caixas) para arma bombas. Equipes podem atacar as outras e roubar o material de integrantes ou tomar a pose das bombas. É divertido e caótico, mas jogar com uma equipe comunicativa é crucial para se dar bem – ele é uma versão de Warzone mais contido.

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Modo Bomba Suja de Call of Duty: Black Ops Cold War

Há também o Armas Combinadas, que reúne os mapas de grande escala em um rodízio entre Dominação (capturar seis pontos do mapa) e Assalto (tomar território e conquistar a base adversária).

Por fim, tem o Escolta VIP, onde duas equipes se enfrentam, sendo que um jogador do time é aleatoriamente designado como VIP. Este deve ser protegido pelos aliados, que devem escolta-lo ao ponto de extração, enquanto a equipe rival preciso eliminar o alvo. Talvez seja o modo mais tático e bacana de jogar, desde que tenha um time dedicado.

Há outras opções que permitem jogar certas modalidades sem HUD ou assistências na tela, o jogador depende apenas de suas habilidades, dos sons e conhecer o mapa. Há uma opção para jogar contra bots e treinar e criar partidas com condições personalizadas.

Os mapas são bacanas e exclusivos, ainda que alguns deles tragam a sensação de “eu já vi essa área ou esse prédio”. A Treyarch optou também por um sistema simplificado de criação de classe de armas e personalização das mesmas, resgatando o uso de uma carta (habilidade especial) que funciona como modificador de regra — uma dessas permite adicionar mais acessórios em suas armas, o que banaliza o sistema de perks.

Cada arma conta com progresso de evolução que abre dispositivos para melhorar seu desempenho, o que torna a experiência mais adequada ao estilo do jogador. Os kill streaks (ataques especiais disponíveis por pontuação) estão mais fáceis e praticamente qualquer um, mesmo um jogador novato, consiga se dar bem. Essa facilidade também torna tudo mais caótico em mapas de larga escala, principalmente com uso de veículos.

Dezenas de skins e perfumaria para armas estão atrelados a desafios e condições, um incentivo bom para os ávidos em atingir nível de prestígio. Cumprir as condições de cada tipo de arma obriga o jogador a mudar sua forma de jogar e explorar mais, despertando aquela sensação boa de jogar procurando coisas para liberar.

Por outro lado há o desbalanceamento das armas, o que afasta o interesse inicial de explorar a variedade do arsenal e até mesmo cumprir os desafios. Também não há muitos mapas e variedades nas rotações de partidas por modalidade — alguns mapas são restritos a certas categorias. São detalhes que vão se ajustar com atualizações e lançamento de conteúdo ao longo do tempo, mas que incomodam e dão a impressão de que falta variedade.

O visual se mantém bacana, embora aquém da nova geração de videogames (e placas de vídeo parrudas para PC), tendo como grande diferencial separando as gerações o ray tracing e possibilidade de atingir altas taxas de frame rate. De resto o visual é nivelado entre todos os consoles, o que não é ruim para quem tem o PS4 base ou Xbox One e não tem condição ou pensa em mudar tão cedo.

Campanha dos mortos-vivos

O modo Zombies é um dos melhores já lançados na franquia. Ele tem sua própria narrativa, você não precisa saber o que aconteceu em outros jogos para entender o que se passa aqui. Isso também o torna uma ótima porta de entrada, já que este modo está mais amigável.

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Ele também é o que mais tem novidades e permite criar sua própria classe de armas para a campanha dos mortos-vivos, além de equipar habilidades especiais, que são liberadas conforme seu progresso. Sua evolução aqui dá acesso ao diagrama das armas que usa, o que permite evoluí-la em três níveis. E o mesmo se aplica às habilidades. Estas melhorias são permanentes, mas dependem da coleta de cristais de Aetherium, obtidas nas partidas.

Outro ponto interessante é que todo o conteúdo extra desse modo ficará disponível de forma gratuita — mapas, habilidades e armas adicionais —, além de que o progresso de personagem obtido aqui é integrado ao Multiplayer. O mapa é mais aberto e segue um ritmo que lembra bastante Left 4 Dead. Além dos objetivos, há desafios extras, novos inimigos, estações para comprar habilidades e melhorias temporárias de autodefesa enquanto joga.

O minimapa foi integrado e ajuda bastante na localização de alvos e orientação pelo ambiente. Infelizmente só há um mapa disponível com a modalidade Die Maschine (A Máquina, em tradução livre do alemão), que se divide em partidas sem fim ou outra que se encerra ao sobreviver 20 rodadas combatendo hordas de zumbis.

Você pode jogar online ou local com mais três jogadores, o que torna a exploração mais divertida. É preciso ativar uma máquina e cumprir condições para que a narrativa prossiga, além de sobreviver às viagens dimensionais. É maravilhoso, mas surpresa e a atmosfera sombria logo se perdem com a repetição de algumas partidas.

Sem Fronteiras

Independentemente de você mudar agora ou não de geração é que o jogo é, além de crossgen (você transferir sua progressão entre plataformas, já que esta está amarrada à sua conta da Activision e não necessariamente na plataforma) e crossplay, ou seja, todas as plataformas se encontram no Multiplayer.

Isso é ótimo para manter o fluxo de partidas ativas, mas também há quem prefira desativar a jogatina entre videogame e PC para evitar jogadores que se valem de hacks. E é só por isso mesmo, já que até nos videogames de base (PS4 e Xbox One) você pode ligar um teclado e mouse se sua veia competitiva pulsar muito forte.

No geral, Call of Duty: Black Ops Cold War ainda sofre com a falta de autoconsciência de suas capacidades, embora continue divertido e seja bacana de jogar online. O trabalho de dublagem e localização está muito boa e o jogo conta com uma trilha sonora bem impactante.

Se não jogou nenhum título da franquia nos últimos anos, ou se mudou de geração de videogames, “talvez” valha investir. Por outro lado, a existência de Call of Duty: Warzone, o battle royale que ficou free to play em março de 2020, me faz questionar, especialmente quando se pensa nos preços dos jogos no Brasil atualmente.

Ainda que o modo Warzone seja integrado a CoD: Black Ops Cold War, ele atua de forma independente, atende as necessidades de muitos jogadores, tem um visual e mecânicas de jogabilidade mais bem resolvidos, é totalmente gratuito e ainda recebe skins e perfumarias oriundas de Cold War sem nenhum custo adicional. Fica a dica.


Call of Duty: Black Ops Cold War está disponível para PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox One, Xbox Series e PC. Este review foi feito com uma cópia cedida pela Activision.