Blade Runner: Black Lotus tem início marcado por homenagens e roteiro pouco inspirado

Anime da Crunchyroll em parceria com Adult Swim se esforça para recriar atmosfera do filme de 1982

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Blade Runner: Black Lotus tem início marcado por homenagens e roteiro pouco inspirado

Poucos filmes construíram um legado tão sólido quanto Blade Runner – O Caçador de Androides. Desde sua estreia em 1982, o longa mudou a forma de se pensar em ficção científica e passou a fazer parte do DNA da cultura pop. Adaptação de um romance clássico, a produção deu início a uma franquia que ganhou uma continuação nos cinemas e agora retorna aos animes com Blade Runner: Black Lotus. Produção da Crunchyroll em parceria com a Adult Swim, a animação tem um início marcado por homenagens e um roteiro pouco inspirado.

Black Lotus acompanha Elle, jovem que acorda em um caminhão de mudanças sem memórias, portando apenas um objeto misterioso. Chegando à futurística e distópica Los Angeles de 2032, ela inicia uma busca pela verdade, contando apenas com pequenos fragmentos de memórias que surgem ocasionalmente.

Trazer uma franquia como Blade Runner de volta é um desafio enorme. A maior prova é que demorou 35 anos para que o filme original ganhasse a sequência Blade Runner 2049. Muito desse obstáculo está no fato de que a obra original é uma mistura de características muito diferentes, que unidas dão origem a um universo único e rico. O que é possível replicar do longa de Ridley Scott é a ambientação única da Los Angeles do futuro. Nesse quesito, a equipe do estúdio Sola Digital Arts fez bonito com uma reconstrução que beira a perfeição.

Blade Runner: Black Lotus captura a atmosfera deslumbrante e claustrofóbica nos mínimos detalhes. Desde as ruas sujas banhadas pelo neon de telões e placas, até ambientes internos tomados por fumaça e a intrusiva luz que invade janelas e portas. Dessa forma, o design cria o palco perfeito para que os diretores Kenji Kamiyama e Shinji Aramaki (Ghost in the Shell: SAC_2045) explorem esse ambiente com o mesmo olhar assustado, porém curioso, encontrado nos cinemas.

Cena do anime Blade Runner: Black Lotus (Divulgação/Adult Swim e Crunchyroll)
A deslumbrante Los Angeles de Blade Runner: Black Lotus

Esse capricho, infelizmente não chega completamente aos personagens. Logo nos primeiros minutos, a computação gráfica do anime demonstra na prática a teoria do vale da estranheza. Enquanto os personagens se saem bem em cenas de luta e perseguição, o mesmo não dá para dizer nas passagens mais calmas, onde a movimentação é travada e as expressões sem vida. Há momentos em que a câmera foca em figurantes com movimentos travados e sem vida, que parecem ter saído diretamente das animações em computação gráfica do início dos anos 2000.

Por outro lado, o anime busca compensar essas falhas com a já citada familiaridade evocada pelos cenários e ampliada pela trilha sonora de Michael Hodges e Gerald Trottman. A dupla se esforça para fazer jus ao memorável trabalho de Vangelis no filme de 1982 e ao mesmo tempo dar ritmo a uma história que é menos contemplativa. Isso porque em seus primeiros episódios, Black Lotus toma caminhos diferentes e foca mais na ação do que no suspense filosófico que se tornou marca registrada da franquia até aqui.

Assim como Rick Deckard (Harrison Ford) e K (Ryan Gosling), a jornada de Elle está repleta de questionamentos existenciais. Porém, ao contrário dos protagonistas dos filmes, que tinham o luxo de serem desenvolvidos ao longo de horas, a jovem é colocada em um caminho que inicialmente tem maior foco na porradaria do que nas reflexões.

Até certo ponto, chega a ser frustrante sentir que o universo de Blade Runner foi trazido de volta para contar uma história tão comum quanto a de alguém sem memórias em busca de respostas. O tema já ficou desgastado por dar as caras em produções como Battle Angel Alita, A Identidade Bourne e muitos outros. Porém, logo em seu segundo episódio o anime toma a sábia decisão de mudar as regras do jogo, tirando a previsibilidade da equação e apontando rumos para que a história mergulhe em outros temas da franquia.

Elle no anime Blade Runner: Black Lotus (Divulgação/Adult Swim e Crunchyroll)
Elle, a protagonista de Blade Runner: Black Lotus

Com onze episódios pela frente, Blade Runner: Black Lotus tem o desafio de colocar em prática o potencial que demonstrou nos dois primeiros capítulos. O anime saiu na frente ao ter feito a lição de casa na recriação do característico universo da franquia, agora resta dar à sua protagonista uma jornada memorável.

Blade Runner: Black Lotus, uma produção original da Crunchyroll e do Adult Swim, estreia no dia 13 de novembro na Crunchyroll.

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