Batman vs Superman: Crítica COM Spoilers

Uma análise profunda das escolhas narrativas feitas por Zack Snyder

Guilherme Jacobs Publicado por Guilherme Jacobs
Batman vs Superman: Crítica COM Spoilers

Esse texto contém vários spoilers de Batman vs Superman: A Origem da Justiça

Zack Snyder odeia super heróis. Mas vamos dar um passo pra trás antes de falar disso.

Batman vs Superman é um filme confuso. Seu roteiro é mal estruturado, as cenas não tem conexão entre si, e o ritmo é uma bagunça. Nós exploramos esses pontos na nossa crítica, mas hoje vamos entrar nos detalhes da história, explorar as decisões narrativas do filme e o que ele significa pro futuro do universo cinematográfico da DC Comics, aos olhos de alguém que leu e conhece os quadrinhos que deram origem aos personagens adaptados aqui.

Eu cresci com Batman e Superman, eles são meus personagens favoritos de qualquer universo fictício. Meu apreço por eles e o que representam é enorme, e resultou na leitura de centenas de quadrinhos, horas assistindo filmes, séries e jogando jogos. Eu amo como o Batman representa a capacidade humana de superação, como ele é o cara que não desiste e que luta até o fim porque ele sabe que, se você aguentar o que a escuridão jogar em cima de você, você sai uma pessoa melhor do outro lado. Já o Superman representa como uma pessoa normal pode fazer a diferença, como já expliquei nesse texto aqui, sua grandeza não vem dele ser um deus poderoso, mas sim de ser um cara normal que também é capaz de levantar um carro. Tendo dito isso, eu não sei quem são os homens com capas que protagonizam esse filme.

Um Batman Que Desistiu

Ben Affleck é ótimo como Batman, sua atuação é convincente, o visual das roupas é incrível, e pela primeira vez na história do cinema, ele é claramente um poder físico presente na tela, capaz de eliminar dezenas de bandidos num piscar de olhos. Ele também é um psicopata que mata pessoas sem se preocupar com os danos que está causando. No melhor filme do personagem até hoje, O Cavaleiro das Trevas, o Coringa de Heath Ledger é como Satanás tentando Jesus no deserto. Ele ousa acusar o Batman e dizer que o herói só vai conseguir pará-lo se quebrar sua regra dourada, não matar. É um debate filosófico entre os personagens e quando o Coringa finalmente é preso no fim, ele grita, pendurado de cabeça pra baixo, que o Batman realmente é incorruptível, ele não abre brechas, não deixa seu código de conduta. No final, ele toma a culpa dos atos cometidos por Harvey Dent, porque prefere ser caçado e procurado do que permitir que a esperança do povo de Gotham seja perdida.

Em Batman vs. Superman, o personagem mata diversas pessoas em duas cenas. Uma delas é um sonho (ou não, mais sobre isso depois) e na outra, ele persegue bandidos pela rua de Gotham explodindo eles de toda maneira possível, usando armas automáticas de alto calibre pra isso. Depois, quando ele vai salvar Martha Kent das mãos de Lex Luthor, em um dos momentos mais importantes do filme, Batman segura uma metralhadora e aperta o gatilho. Na HQ na qual Zack Snyder se baseou para construir esse filme, o mesmo Batman, velho, com raiva, diz que eles não precisam dessas armas, e usa bala de borrachas quando precisa de mais poder de fogo. Em outra interpretação mais velha do herói, ele desiste de lutar contra o crime porque percebe que não consegue mais vencer sem usar armas. Aqui, elas são muitas vezes sua primeira estratégia para parar os inimigos.

Batman Guns TDKR

Também é verdade que na mesma HQ, o Batman quebra o pescoço do Coringa. Mas há uma diferença enorme entre uma luta que durou décadas entre dois rivais terminar com uma morte porque aquilo é o último recurso, e usar armas de fogo repetidas vezes, incluindo nos momentos mais importantes da história. Esse Batman também cria uma raiva inexplicável pelo Superman, parte para briga sem antes investigar o que está acontecendo com o kryptoniano, e estava disposto a assassinar o Homem de Aço com uma lança mesmo depois derrotá-lo. Nos quadrinhos, depois de vencer a luta, o mesmo Batman que passou pela morte do Robin, que está velho e violento, deixa claro para Clark Kent quem ele é, e para por ai.

Você pode me dizer que esse Batman é outra versão do personagem, que isso é uma releitura de Zack Snyder e companhia, e você não estaria errado, mas essa não é uma versão com a qual eu me importo. Esse é um Batman que, ao contrário do que vemos em O Cavaleiro das Trevas, foi corrompido. Ele desistiu. Esse Batman não acredita que todos valem a pena. Com isso, eu só consigo acreditar que Snyder acha o Batman antiquado, insuficiente, fraco. Mas se ele acha isso de Bruce Wayne, então imagine Clark Kent.

Um Superman Que Nunca Tentou

Em um certo momento em Batman vs. Superman, Perry White vira para Clark Kent e diz que suas visões são antiquadas, que não estamos mais em 1938. Esse foi, claro, o ano em que Superman foi criado por Jerry Siegel e Joe Shuster, e assistindo o filme, fica claro que aquilo também é o diretor dizendo para os fãs o esquecerem, porque ele não é mais relevante e ninguém liga mais pro que ele tem a dizer. O resto do filme segue essa linha de visão. Batman, apesar de tudo, ainda tem uma motivação nesse filme. O Superman não faz nada, não tem propósito, voz ou personalidade. Ele é um deus distante que faz a mesma cara de sofrimento repetidas vezes quando algo dá errado. Há uma montagem dos atos heróicos do personagem cujo propósito é nos mostrar como ele é bom, como ele é incrível, oh, que figura messiânica! Mas, por que ele faz?

Em outro momento, há um debate em que uma pessoa sugere que o Supes não é um novo Jesus Cristo, mas apenas um cara tentando fazer a coisa certa. Zack Snyder não acredita nisso, porque durante todo o filme, Superman não tenta fazer nada. Coisas acontecem com ele e ele reage porque precisa reagir, ou a história não vai avançar. Ele não tem personalidade, é apenas uma coleção de poderes com músculos grandes e um complexo de inferioridade, e quando a oposição contra ele começa, Clark Kent decide ir embora, porque as pessoas não o querem. Quando Martha Kent vira pra seu filho e diz que ele não deve nada ao mundo, ela está corretíssima, mas o que torna o herói tão incrível é como ele procura fazer a coisa certa mesmo sem dever nada a ninguém. Ele não age porque perdeu os pais numa noite, porque causou a morte do seu tio de alguma forma, ou porque precisa compensar um erro do passado. Clark Kent é o Superman porque ele percebeu que não precisava ficar em casa assistindo os desastres, e podia ir lá fora e fazer a diferença.

Eu não sei te dizer por que o Superman de Batman vs. Superman existe. Eu sabia em Homem de Aço, que eu ainda acho um bom filme, mas aqui ele não é a figura de liderança e heroísmo que sempre foi, e Snyder nunca se dá o trabalho de desenvolver as motivações ou propósitos dele. Na luta contra o Doomsday, a Mulher-Maravilha sorri depois de uma pancada, e ainda sorrindo, volta para o combate. Esse pequeno momento informa tudo que você precisa saber sobre ela, e diz mais sobre sua personalidade do que os diversos diálogos expositivos sobre o Superman. Ela é de longe uma das melhores partes do filme, o que me deixa muito animado pra vê-la novamente em 2017, mas fica por ai.

Então, em uma jogada que qualquer fã vai vir chegando a cinco mil quilomêtros de distância, Superman morre, e todos estão tristes e chocados porque o maior herói morreu. É a mesma coisa que aconteceu nos quadrinhos, uma tentativa desesperada de mostrar a importância do personagem, só pra depois deixar claro que ele está vivo. É claro que ele está vivo, Henry Cavill já está pronto para começar a filmar Liga da Justiça. A morte do Superman não tem o menor significado aqui, a não ser mostrar para Ben Affleck que ele precisa de ajuda. Ainda por cima, é uma morte que poderia ter sido evitada se o personagem parasse pra pensar antes de partir pra cima de um monstro genérico de CGI.

Superman continua relevante depois de 75 anos, porque ele representa todos nós. Clark Kent também sofre com seu chefe, tem ex-namoradas, gosta da comida da mãe. Ele não é um bilionário estiloso ou um gênio incompreendido. Ele é uma pessoa que seria sua amiga na faculdade, e que gosta de fazer a coisa certa. Se Clark não tivesse super poderes, ele faria o possível para ajudar outras pessoas usando o jornalismo ou qualquer outro meio possível. Mas em Batman vs Superman, ele não rebate os argumentos do Batman ou Luthor, ele não diz porque é importante que o Superman exista, ele participa no mínimo de heroísmo que puder, e no único momento em que ele vai ter a chance de falar isso, na frente do Senado norte-americano, o filme literalmente explode na sua cara, e não o dá a chance de dar um discurso como esse.

Superman Truth Justice

Uma Mulher-Maravilha Que Arrasa

Só pra não ficar só no negativo, eu gostaria de falar da Mulher-Maravilha. Ela é uma das melhores partes do filme, passando em um pequeno sorriso – que aliás, foi decisão da atriz Gal Gadot, não do diretor – tudo que você precisa saber sobre a heroína. Uma guerreira, alguém que decide fazer a coisa certa, cheia de coragem e veterana no campo de batalha. Ela passa por um arco de personagem extremamente eficaz nas poucas cenas que tem. Diana Prince decidiu se ausentar da raça humana 100 anos atrás – vamos entender por que no seu filme, em 2017 – e passa o filme todo tentando continuar ausente.

Mas então ela vê o que está acontecendo e não consegue ficar parada. Ela decide voltar à ação e fazer a diferença. Então, ela luta usando todos os seus elementos clássicos de quadrinhos – incluindo o laço, num momento super legal – e por fim aceita a ideia de entrar na Liga. Sua presença nesse filme é de fato uma coincidência, ela meio que aparece do nada, mas tudo isso é justificado quando vemos ela em ação. Feminina, destemida, certa do que está fazendo.

É por essa razão que ela está na frente e no centro da imagem destaca acima. Ela é, em seus poucos momentos, o que Batman e Superman deviam ser. Ela funciona como uma personagem primeiro, e depois como um atrativo para este universo. Por causa dos seus ótimos momentos e do seu crescimento durante a história, queremos ver mais dela, conhecer seu mundo e acompanhar sua aventura.

A Origem do Próximo Blockbuster

O propósito das palavras desse texto até aqui foi explicar que esse não é um filme sobre o Batman e Superman, pelo menos não sobre as versões destes personagens que conquistaram milhões de fãs devotos ao longo de quase 80 anos. O propósito é ser um trailer para o filme da Liga da Justiça que estreia ano que vem, também sobre o comando de Zack Snyder, e cada personagem ganha o seu mini-teaser quando a Mulher-Maravilha abre uma pasta de Lex Luthor que, convenientemente, já tem os símbolos e nomes de todos os heróis. O Ciborgue está lá, o Flash está lá, o Aquaman está lá, e você os vê fazendo coisas incríveis, mas que não adicionam nada ao filme. Os vídeos são tão claramente teasers que eu esperava que cada um terminasse com a data de lançamento dos filmes dos outros heróis e um texto “Em Breve nos Cinemas” na tela.

E então temos a cena onde o Flash aparece, do nada, através da speed-force, vindo de um futuro pós-apocalíptico no qual, é claro, Batman usa ainda mais armas, Superman virou um ditador e aparentemente o Darkseid chegou na Terra, para avisar a Bruce que ele estava certo e que devemos ter medo e que Lois Lane é a chave. Do jeito que a cena acontece, o futuro distópico é um sonho, então Bruce acorda e o Flash aparece, e ele acorda novamente. Foi um sonho? Se sim, como ele sonhou com alguém que nunca viu? E qual o propósito do Flash ali? Se não foi, temos um mundo onde o Batman continua partindo pro tiroteio e o Superman perdeu toda sua integridade? Não faz o menor sentido, mas isso é jogado pra nós como algo importante. Eu entendi o que estava implícito ali, coisas como Flashpoint estão sendo referenciadas, mas ficaria fascinado de ver uma pessoa que não conhece a DC Comics tentando explicar o que aconteceu.

Por fim, Lex Luthor, que provavelmente conseguiu conhecimento absoluto através da nave kryptoniana, avisa a Batman que já é tarde demais. O sino foi tocado e “ele está vindo.” Enquanto o vilão dá seu discurso, vemos um quadro na sua casa com um demônio vindo dos céus para batalhar com os anjos. Se você não leu os quadrinhos, é impossível entender o que aquilo quer dizer, mas o filme joga na sua cara que algo importante vai acontecer e por isso a Liga da Justiça é necessária, e pede pra que você acredite mesmo sem provas ou explicações. Bruce Wayne, quando questionado por Diana Prince sobre a razão de juntar os outros meta-humanos, literalmente fala que é intuição.

Batman vs Superman passa 2h40 te dizendo que vai existir um universo cinematográfico da DC nos cinemas, que ano que em tem um filme da Liga da Justiça, e Darkseid provavelmente vai dar as caras. Entretanto, ele esquece de criar super heróis e personagens neste universo que nos façam ter vontade de continuar nesse universo. Ele é um trailer gigante, cheio de visuais incríveis, lutas de tirar o fôlego e uma trilha sonora absolutamente incrível, mas com uma história mais furada do que os carros de bandidos que tem o azar de encontrar o Batman e suas metralhadoras.

Eu ainda vou ver os filmes da Liga da Justiça, e acredito que outros títulos desse universo – Esquadrão Suicida, Mulher-Maravilha e Aquaman – vão nos dar ótimos histórias com boas versões destes personagens, mas como um primeiro passo, como a fundação de uma construção narrativa gigante, Batman vs. Superman falha completamente.

Um universo de super heróis só existe na base de super heróis, mas a julgar por este filme, Zack Snyder acredita que eles são antiquados e insuficientes, e só valem a pena ser mostrados quando estão fazendo algo sobre-humano, que permite ao diretor usar seus truques de computação e efeitos especiais.

Como podemos nos interessar pela Liga se essa é a visão que nos está sendo entregue?

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