Aladdin | Crítica

Longa de Guy Ritchie consegue recontar a história que todos conhecemos ao mesmo tempo que a atualiza tematicamente

Cesar Gaglioni Publicado por Cesar Gaglioni
Aladdin | Crítica

Aladdin, dirigido por Guy Ritchie (Sherlock Holmes), a primeira vista pode parecer apenas mais um remake, feito apenas para surfar na onda atual de nostalgia em Hollywood.

Desde 2010, a Disney vem investindo na produção de versões live-action de algumas de suas animações consagradas. A onda começou com Alice no País das Maravilhas (2010), e seguiu, quatro anos depois, com Malévola (2014). Ambas tiveram uma recepção morna do público e da crítica, principalmente por aproveitarem personagens icônicos dos desenhos para novas histórias.

Então, a Empresa do Mickey descobriu um novo filão na produção de seus live-action: simplesmente refilmar, quadro a quadro, suas animações, usando uma estética realista. Mogli: O Menino-Lobo (2016) foi um sucesso comercial, sendo bem recebido ao redor do mundo. Desde então, a Disney tem apostado nisso, com produções como A Bela e a Fera (2017) e Dumbo (2019), que somente recriam o material original, apresentando-o para um novo público.

Porém, o grande trunfo de Aladdin é achar um meio termo entre esses dois caminhos, recontando a história que todos conhecemos, ao mesmo tempo em que acrescenta alguns elementos que enriquecem ainda mais o mundo de Agrabah.

A trama principal permanece a mesma: Aladdin (Mena Massoud), um garoto órfão que vive nas ruas de Agrabah, é mandado pelo vizir Jafar (Marwan Kenzari) para a Caverna das Maravilhas, um lugar repleto de tesouros e lar de uma lâmpada mágica, onde vive um Gênio (Will Smith), capaz de conceder três desejos. Ao mesmo tempo, acompanhamos a vida cotidiana da princesa Jasmine (Naomi Scott), que, ávida por ver o mundo, acaba conhecendo o protagonista.

Apesar de ser uma jornada conhecida, Ritchie, ao lado do roteirista John August, coloca alguns temperos no projeto, que tornam a experiência de se assistir a Aladdin algo quase inédito, principalmente por suas atualizações temáticas, como por exemplo, a construção de Jasmine.

Na animação de 1992, a personagem foi uma quebra de paradigmas em relação ao que tinha sido feito com as princesas Disney até então, sendo apresentada como uma mulher independente, que queria, acima de tudo, a sua liberdade. Já na adaptação de 2019, ela ainda tem essas características, mas também é retratada de maneira empoderada, buscando seu lugar dentro da política de Agrabah, tentando liderar seu povo da melhor maneira possível.

Além de trazer os temas mais amplos para mais perto do público, ao aproximá-los do contexto atual, Ritchie também sabe entender as virtudes de seus astros, aproveitando-os de maneira brilhante. Nesse âmbito, por exemplo, vemos Will Smith cantando a icônica música “Nunca Teve Um Amigo Assim” com batidas de rap.

Smith, inclusive, é o grande destaque do elenco de Aladdin. O astro soube aproveitar algumas características do Gênio original, vivido por Robin Williams, como, por exemplo, referências à cultura pop, e dá a elas sua própria identidade, brincando inclusive com um de seus papéis mais famosos, o Will da série Um Maluco no Pedaço.

O carisma do Gênio, contudo, não consegue compensar a falta de presença de Massoud e Kenzari. O vilão Jafar, que originalmente era uma figura puramente maléfica e odiosa, é representado por seu intérprete como um líder birrento, que quer ter o poder apenas para satisfazer seus problemas de auto-estima. Já o protagonista, que não tem muita expressividade, poderia facilmente assumir o papel em um dos parques da Disney, já que em nenhum momento ele consegue entregar as virtudes e a malandragem do personagem.

Outro destaque da nova versão de Aladdin são os números musicais. Todas as canções icônicas da animação original estão lá, de “Não sou Ladrão” a “Um Mundo Ideal”. Outras foram compostas especialmente para o longa, feitas pela dupla Benj Pasek e Justin Paul, os responsáveis por La La Land. Para a direção visual das cenas cantadas, Ritchie se inspira, principalmente, em musicais clássicos como Cantando na Chuva (1952) e Os Homens Preferem as Loiras (1953), trazendo grandiosidade e uma teatralidade para essas sequências.

Aladdin se apresenta como a produção mais interessante da safra atual produzida pela Disney. Mesmo não sendo um grande filme, certamente é uma boa forma de se revisitar um jovem clássico com uma roupagem nova. O filme reapresenta bem, para uma nova geração, uma história que, mesmo tendo mais de mil anos de idade, continua encantando aqueles que a descobrem.