O que é o true crime e como ele tem aparecido cada vez mais na cultura pop

O gênero que traz investigações e crimes reais está presente em filmes, livros, podcasts e mais

Fernanda Talarico Publicado por Fernanda Talarico
O que é o true crime e como ele tem aparecido cada vez mais na cultura pop

“O conteúdo a seguir contém cenas fortes e de violência”. Este é um aviso recorrente em obras de true crime, gênero cada vez mais presente no mundo do entretenimento. O termo significa algo como “crime de verdade” ou “crime real”, mas costuma ser utilizado em inglês mesmo, sem ser traduzido.

Diferente de filmes e livros baseados em histórias reais, a intenção do true crime é trazer casos verdadeiros, expor os detalhes dos crimes e o passo a passo das investigações. Esse estilo de não-ficção atrai cada vez mais fãs, mesmo que o tema aborde atrocidades, crimes hediondos e finais não muito felizes.

Os títulos de true crime acompanham casos reais e não apenas “baseado em fatos reais”: eles fazem parte de um gênero literário e cinematográfico de não-ficção no qual o autor examina um crime real e detalha as ações de pessoas verdadeiras.

O conteúdo dessas obras é, em sua maioria, jornalísticos: entrevistas, áudios de processos, gravações feitas em tribunais, imagens da cobertura da imprensa dos crimes e diversos outros. Uma tendência deste tipo de produção é a de dar voz aos criminosos e acusados, para que eles possam falar sobre seu lado da história e explicar a sua posição.

O crime mais comumente retratado é o de assassinato, com uma boa parte dos títulos focando em um assassino em série. A abordagem varia entre análise do perfil do criminoso, o desenrolar do caso – com detalhes sobre as investigações –, explicação do modus operandi (o método do criminoso), e até mesmo equívocos que possam ter acontecido no processo de análise do crime.

Como se trata da vida real, há casos que não apresentam nenhuma resolução concreta. O maior compromisso de um conteúdo true crime, portanto, não é chegar a uma resposta, mas sim expor a versão dos envolvidos – o que nem sempre é a verdade.

O interesse pelo gênero

As obras sobre o assunto não param de se multiplicar e isso acontece muito pelo interesse do público. Para o Prof. Dr. Avelino Rodrigues, do Departamento de Psicologia Clínica do Instituto de Psicologia da USP, o interesse existe por se tratar da natureza humana e, ao ser consumido por meio de filmes, livros e séries, passa por um processo de sublimação, quando o conteúdo (não os crimes em si), passa a ser aceito e valorizado pela sociedade. “O prazer de assistir tais filmes resulta da identificação — não consciente — do espectador com o conteúdo do filme”.

Estes conteúdos destrutivos tendem a ser reprimidos, até para permitir o convívio social. Mas isto não faz que desapareçam. É aí que surge o mecanismo da sublimação. […] O ser humano contém muitas possibilidades construtivas, mas, também, destrutivas. Os conteúdos destrutivos emergem mas transformados em obras de arte — por exemplo, na forma dos filmes. […] Se este mecanismo fosse consciente seria rejeitado, mas não é assim que ocorre.

Segundo Ilana Casoy, criminóloga e autora de Arquivo Serial Killers – Made in Brazil (reeditado pela editora DarkSide Books em 2014) e Casos de Família (DarkSide Books, 2016), a curiosidade e o interesse pela mente humana é o que faz aumentar a procura por títulos do gênero.

Percebi que o público que gosta desse tipo de assunto ficou mais exigente e anseia por análises de comportamento das pessoas envolvidas com aquele crime – quem comete, investiga e reflete sobre eles, sem o velho maniqueísmo de polícia boa, bandido mau.

Ilana Casoy, escritora de Casos de Família, com o caso Von Richthofen e Isabella Nardoni

Para Mabê Bonafé, apresentadora do podcast Modus Operandi, a mídia é responsável pela disposição do público pelo gênero, uma vez que somos sempre bombardeados com informações do tipo: “Existe um sensacionalismo muito grande. Tudo o que acontece nesse sentido, a mídia gosta de criar uma situação, uma história, trazer muito o assunto”, explica.

A gente nasceu bombardeado de notícias desse tipo, como filmes de serial killers, então existe uma glamorização, que construiu o nosso pensamento para que a gente sentisse muito interesse nesse assunto. […] A gente criou, há muitas décadas atrás, filmes, séries… É impossível uma pessoa que tenha nascido nos anos 1980 ou 1990 não se interessar ou não ter visto alguma coisa sobre esse assunto.

Filmes e séries

Mas cuidado: não é porque determinada produção trata de alguma história real que se encaixa como true crime. A partir do momento em que filmes e séries, por exemplo, são feitos com atores e roteiros, se tornam produções baseadas em fatos reais. Portanto, fogem do gênero. É o caso de American Crime Story, que adaptou para a TV o caso de O. J. Simpson e o assassinato de Gianni Versace. Em ambos os casos, houve uma montagem dos fatos para que a narrativa fosse favorecida.

No caso do serial killer Ted Bundy, por exemplo, duas produções recentes falam sobre os seus crimes. Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy (2019) é uma minissérie disponível na Netflix que, ao longo de quatro capítulos, traz conversas com o criminoso, com a premissa de “se aprofundar” em sua mente, apresentando fatos reais. Já o filme Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (2019), também da Netflix, é uma versão ficcional da história, com o astro Zac Efron no papel do assassino. A produção sofreu duras críticas por ter “glamorizado” o Bundy, além de ter distorcido alguns fatos à favor da narrativa.

Um exemplo que se encaixa em todos os critérios do gênero é a Making a Murderer. Lançada em 2015 e com duas temporadas até o momento, disponíveis na Netflix, o título acompanha a história de Steven Avery, um homem que passou 18 anos preso por um crime alega não ter cometido. A série acompanha a investigação, o julgamento e todas as contradições que giram em torno do caso.

Steven Avery, de Making a Murderer

O documentário Mamãe Morta e Querida (2017), disponível no HBO Go, também figura como uma das obras recentes mais importantes do gênero. A produção acompanha a história de Gypsy Rose, uma jovem, vítima de abuso infantil, que planejou o assassinato de sua própria mãe. O título apresenta detalhes e todas as reviravoltas de um dos crimes mais chocantes da atualidade que ganhou grande espaço no entretenimento. A série The Act (2019) – disponível na Starzplay e estrelada por Patricia Arquette – é baseada na história apresentada no documentário, mas acaba também alterando fatos para privilegiar o roteiro.

A série documental brasileira Investigação Criminal, disponível no streaming Looke, dedica cada episódio para um grande caso que tenha acontecido no Brasil, como o caso de Suzane Von Richthofen, que tramou a morte dos próprios país; a morte Isabella Nardoni, na qual o pai e a madrasta foram condenados; e o Maníaco do Parque, um assassino em série que aterrorizou São Paulo. 

Gypsy Rose e a mãe Dee Dee, de Mamãe Morta e Querida

Outros títulos true crime disponíveis na Netflix são: Jeffrey Epstein: Poder e Perversão (2019), Amanda Knox (2016), O Desaparecimento de Madeleine McCann (2019), Gênio Diabólico (2018), Don’t F**k With Cats: Uma Caçada Online  (2019), Bandidos na TV (2019) e The Staircase (2018).

True crime na literatura

O true crime já está presente da literatura há muito tempo e, normalmente, os livros relatam um crime desde o início de sua investigação até seus procedimentos legais finais.

Ilana Casoy conta que há grandes dificuldades para se ter acesso aos casos, mas que há maneiras para conseguir escrevê-los: “Cada caso é diferente em suas peculiaridades. É sempre algo novo e desafiador, começando mesmo do zero.”

Com o tempo de pesquisa, fui fazendo amizades importantes, fui a muitos cursos, congressos, palestras. Acho que o segredo é você não saber tudo, mas saber para quem perguntar e entender os diferentes pontos de vista que existe em cada processo. Essas referências vão te permitindo encontrar o acessos com maior facilidade.

Um dos títulos precursores do gênero, A Sangue Frio, foi escrito por Truman Capote, em 1966. A obra de jornalismo literário acompanha a história do assassinato da família Clutter, no Kansas. O livro se tornou base para diversas adaptações e para o filme Capote, baseado no processo de escrita do título pelo autor. No Brasil, a obra saiu pela Companhia Das Letras.

Outro livro muito importante é Helter Skelter, de 1974, o qual narra os crimes da seita criada por Charles Manson, os assassinatos cometidos por eles – como o da atriz Sharon Tate –, e toda a investigação e processo legal. Esta obra se tornou muito importante para a cultura pop, com Manson se tornando um personagem corriqueiro em diversas obras. Infelizmente, o livro não foi lançado em português.

Charles Manson, responsável pelos crimes retratados em Helter Skelter

Recentemente, a série Mindhunter, da Netflix, fez bastante sucesso ao trazer o processo de criação de uma unidade do FBI focada em assassinos em série. A produção é baseada no livro homônimo que traz o relato do agente John E. Douglas sobre investigações e também entrevistas com criminosos notórios.

Outros livros do gênero: Toda dia a Mesma Noite (Intrínseca, 2018), O Crime do Restaurante Chinês (Companhia das Letras, 2009), Por que Crianças Matam (Vestígio, 2019), O Demônio na Cidade Branca (Intrínseca, 2016), Columbine (Darkside, 2019), Killer Clown Profile: Retrato de um Assassino (Darkside, 2019), BTK Profile: Máscara da Maldade (Darkside, 2019) e Ted Bundy – Um Estranho ao Meu Lado (Darkside, 2019). 

Youtube

Shane Madej e Ryan Bergara, apresentadores do BuzzFeed Unsolved: True Crime

É claro que o YouTube não ficaria de fora do sucesso que é o conteúdo true crime e há alguns canais sobre o assunto. Um dos principais é o BuzzFedd Unsolved Network, que além de abordar mistérios em geral, tem uma lista de vídeos apenas sobre crimes reais que ainda não foram resolvidos (o caso “The Bizarre Death Of Elisa Lam” é um dos mais aterrorizantes).

Podcast

Podcasts também são um importante meio para o conteúdo do gênero, com cada vez mais opções disponíveis e com algumas diferentes abordagens.

Um dos programas mais famosos mundialmente sobre o tema é o americano Serial, que teve a sua primeira temporada lançada em 2014 e apresentado pela jornalista Sarah Koenig. Vencedor de diversos prêmios, a primeira leva de episódios investigou o assassinato de Hae Min Lee, uma estudante de 18 anos na Woodlawn High School, em Baltimore, em 1999. A segunda e a terceira temporada também foram de grande sucesso e levaram o podcast a bater o recorde de downloads mundial, com 340 milhões de vezes.

O brasileiro Modus Operandi, já citado aqui no texto, fala de um crime diferente em cada episódio, se destaca entre os mais escutados do gênero no Spotify e outros agregadores. Há também o Cena do Crime, que conta com a presença de especialistas para discutir sobre assassinatos rumorosos; e o Assassinos em Série, uma produção original Spotify que aborda casos famosos de serial killers.

Consequências na vida real

Algumas obras de true crime acabaram mudando o rumo de algumas investigações e sentenças. É o caso da minissérie The Jinx (2015), da HBO, na qual Robert Durst, então suspeito de três assassinatos, falava sobre o caso, quando, por acidente, assumiu a autoria das mortes, sem saber que estava sendo ouvido. Durante a gravação do último episódio da série, um microfone aberto o captou dizendo a si mesmo: “Agora acabou. Te flagraram. O que você fez? Matei todo mundo, é claro”. Quando essa prova surgiu, as autoridades de Los Angeles anunciaram a reabertura da investigação.

Robert Durst assumiu a autoria de três assassinatos durante as gravações de The Jinx

Outro exemplo é o livro Nó do Diabo (Record, 2002), escrito por Mara Leveritt. A obra apontou erros durante uma investigação de assassinato que acabou levando Damien Echols à pena de morte, Jessie Misskelley e Jason Baldwin à prisão perpétua. O documentário Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills (1996) acabou se aprofundando ainda mais no caso e diversas celebridades apoiaram a revisão da investigação, como Johnny Depp, Henry Rollins, Eddie Vedder, Marilyn Manson e Peter Jackson. Com testes de DNA e novos interrogatórios, os três foram dados como inocentes.

A obra Eu Terei Sumido na Escuridão (Vestígio, 2018), escrita por Michelle McNamara, também ajudou a polícia a chegar ao Assassino de Golden State. A autora acabou morrendo em 2016, antes do criminoso ser pego, mas as autoridades fizeram questão de dizer que o processo investigativo de McNamara ajudou muito o caso.

O true crime acaba se tornando um gênero amplamente presente no entretenimento, ao mesmo tempo em que pode acabar interferindo na vida real. Um estudo feito pela Universidade de Nebraska aponta que o consumo de conteúdo true crime está relacionado com o aumento do medo dos espectadores de se tornarem vítimas, assim como o apoio à pena de morte também cresce, em detrimento da confiança no sistema penal.

Ao se desenvolver um conteúdo sobre o assunto, algumas escolhas são feitas em detrimento de outras e, mesmo que apenas com base em fatos verdadeiros, é possível que a montagem de cenas e entrevistas, por exemplo, influenciem na opinião pública. A ligação com a realidade que o assunto traz é um dos motivos de ser um gênero tão consumido nos últimos anos. A ideia de que o que está sendo apresentado realmente aconteceu pode até assustar, mas também aguça a curiosidade.