Anderson Shon

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Chegada dos X-Men ao MCU pode aumentar o debate sobre preconceito

Importância dos personagens vai além de crossovers e referências aos quadrinhos

Chegada dos X-Men ao MCU pode aumentar o debate sobre preconceito

Sabe quando alguém é muito gente boa, só dá bola dentro e tem crédito na praça? Essa pessoa seria o MCU. Qualquer erro da Marvel é menos apontado e criticado, pois a Casa das Ideias já nos deu Vingadores Ultimato, Guardiões da Galáxia, Homem-Aranha: Sem Volta pra Casa, e várias outras produções de sucesso. Como falar mal de quem já nos tratou tão bem?

Porém, grandes personagens não são infinitos e, em suas tentativas recentes, a Marvel tem explorado de forma superficial a fórmula que um dia pareceu inédita. Acho que já está na hora de usar uma carta na manga. Afinal, a ansiedade de 100 entre 100 nerds fãs está voltada para uma pergunta: como os X-Men entrarão no MCU? Esse filme será épico por si só e isso se dará também pela oportunidade que a Casa das Ideias terá de refletir o mundo atual através dos mutantes e entrar em debates que são fundamentais.

Vamos imaginar uma cena: um jovem mutante está escrevendo na internet no site “Mutante Nerd” sobre como a mídia poderia lidar melhor com a imagem dos mutantes, não os estereotipando, nem os limitando, pelo contrário, usando o poder midiático para evitar tantas ondas de violência cotidianas. Esse jovem mutante é rechaçado em comentários e vê sua reivindicação esvaziada pelo silenciamento odioso dos que não entendem suas dores.

Ao chegar na escola, riem dele, o isolam, alguém sempre tem um argumento melhor para chamar suas inquietações de mimimi. Os mutantes darão ao MCU duas oportunidades incríveis: de recomeço, pois há como trabalhar com o grupo, mas também é possível ter vários desdobramentos a partir de histórias isoladas. E de uma reflexão social muito interessante, em que o preconceito das telas servirá como uma cópia do que acontece na rotina de minorias que brigam frequentemente por um espaço ao sol.

Falando de personagens, podemos elencar alguns que falam diretamente com determinados grupos sociais:

Tempestade

Tempestade dos X-Men

Mulher negra, africana, de origem egípcia e superpoderosa. Infelizmente, não poderemos ver o casamento dela com o Pantera Negra (quer dizer, eu acho que não), o que seria uma união incrível nas telonas. Quando Ororo aparecer, teremos mais uma representação africana, mais uma personagem que poderá se conectar com negros e negras não só pela cor da pele, mas pelas origens e seu papel de liderança dentro dos X-Men. Querer que ela tenha moicano ou não é o menor dos problemas. A torcida mesmo é para que a sua origem seja contada e bem detalhada e, se não for pedir demais, Marvel, que não seja só um flashback. Faça, por favor, um filme solo dessa deusa do Egito (e sem o Cavaleiro da Lua).

Noturno

Noturno nos X-Men

Kurt Wagner, nome real do mutante que conhecemos como Noturno, é católico romano e a religião é um ponto marcante na característica do personagem. Nos quadrinhos, Noturno já teve atitudes bem radicais, se distanciando de personagens homossexuais só por conta de seus dogmas religiosos. Kurt traz em si algo cada vez mais frequente, e que a própria Marvel sofreu ao ver o filme Eternos ser impedido de passar em alguns países árabes, por conta de uma total abominação religiosa a questões homoafetivas. Há também a possibilidade dele ser a voz de pessoas que usam a religião como afeto, como um ombro amigo e ponto de salvação para momentos adversos da vida. Além disso, Kurt tem uma origem de abandono que reflete a realidade de muitas pessoas LGBTQIA+ quando revelam quem realmente são para suas famílias. Isso o torna peça chave para os mutantes no MCU.

Homem de Gelo

Homem de Gelo nos X-Men

Fica cada vez menos crível criar mundos ficcionais com personagens de uma orientação sexual. Pense na sua vida. Com certeza você conhece gays, lésbicas e pessoas que não se comportam a partir do padrão heteronormativo. Levando isso em consideração, a presença de Bobby Drake é importante para a naturalização de uma vivência que está em todo o planeta. Construir um personagem gay e – aí vai uma dica Marvel – fazê-lo sem que sua sexualidade seja um problema, será um ponto positivo para quem ainda não entendeu que o mundo é muito melhor se explorarmos sua pluralidade. O Homem de Gelo terá a habilidade de esquentar os corações preconceituosos, por mais que isso soe carinhosamente contraditório.

Magneto e Prof. Xavier

Magneto e Xavier em X-Men

Pense comigo a quantidade de canais do Youtube que apresentam aos jovens figuras como Martin Luther King, Malcolm X, Milk e tantos outros líderes de causas sociais que se refletem direta ou indiretamente na imagem desses dois líderes mutantes. Com a chegada de Erik Lehnsherr e Charles Xavier, jovens terão acesso a pensadores que podem mostrá-los a violência existente, por exemplo, num emoji de riso em uma postagem sobre representatividade. A psicóloga Jennifer Harriger tem um estudo específico que indica como os filmes influenciam comportamentos dos mais jovens e tornam-se validadores de elementos sociais. Sem contar o desdobramento narrativo desses dois personagens, principalmente Magneto, que traz em si os horrores da Segunda Guerra Mundial, momento histórico em que o preconceito foi validado por boa parte de uma nação.

Há outros mutantes que podem acrescentar ao debate sobre diversidade: Apache, Pigmeu, Estrela Polar, Pó, etc. O que não faltam são exemplos de bons personagens que podem agregar bastante, tanto no aspecto narrativo, quanto no reflexivo.

Ter uma obra audiovisual para apontar, metaforicamente, o dedo contra o racismo, homofobia, xenofobia, misoginia, entre outros preconceitos, será um dos maiores acertos da Marvel. É bem verdade que, com tanta ansiedade diante dos mutantes, usar a chegada dos X-Men como bandeira antipreconceito pode, por incrível que pareça, desagradar os fãs e, de alguma forma, até esvaziar o debate.

Por isso, a pessoa responsável pelo roteiro e pela direção terá um trabalho cirúrgico em criar um filme que apresente vários personagens novos, os encaixe em tudo que já está sendo feito pelo MCU e aproveite essa essência para que reflitamos sobre os preconceitos diários. Desafio? Enorme! Porém, nada que a casa das ideias já não tenha se mostrado capaz de fazer. Quem vai entrar comigo no trem do hype?

#WakandaForever

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