Vivemos em um território Lovecraft, mas nem todo mundo percebeu

Os paralelos que a série da HBO traça com os horrores da vida real

Anderson Shon Publicado por Anderson Shon
Vivemos em um território Lovecraft, mas nem todo mundo percebeu

Uma cena simples: Jack Robinson, primeiro jogador negro na liga principal de beisebol dos Estados Unidos destroçando uma das figuras sinistras mais populares da atualidade; o inominável Cthulhu. Porém, o híbrido de polvo, dragão e alienígena se reconstrói e Robinson se posiciona para fazer mais um homerun com a cabeça do monstro. Assim começou Lovecraft Country, nos mostrando que podemos até acabar com o racismo, mas ele sempre se apresentará com outras facetas e teremos que nos aprontar para derrotá-lo novamente.

O escritor Lovecraft nunca escondeu seu desprezo com quem fosse diferente, como no trecho a seguir, retirado do conto Horror de Dunwich: “(…) era, contudo, extremamente feio apesar de sua aparência brilhante; havia algo quase de caprino ou animalesco em seus lábios grossos.” É um texto do começo do século 20, mas que ainda pode ser visto em uma fala de alguns dos nossos contemporâneos em 2020.

Lovecraft Country, por sua vez, inverte o preconceito expresso pelo autor, trazendo uma história em que os negros são protagonistas — fazendo o esqueleto de Lovecraft se revirar no túmulo. Porém, a série, oriunda do livro de Matt Ruff, não acerta somente em ser uma vingança aos escritos do autor de O Chamado de Cthulhu. Cada episódio estampa um passado que traça um paralelo com o que vivemos no cotidiano e nos mostra as consequências mortais de manter uma guerra racial, com ou sem magia.

Passear pela história de opressão dos negros é algo que a HBO tem feito com maestria. Foi assim em Watchmen, relembrando ao mundo o esquecido massacre de Tulsa e agora em Lovecraft Country, que abordou momentos históricos terríveis e mais assustadores do que a própria ficção.

[A partir de agora, o texto contém spoilers de Lovecraft Country]

Um deles, no primeiro episódio, foi a perseguição do policial branco ao grupo formado por Tic, Leti e Tio George. O trio estava em uma rodovia que pertencia a uma Sundown Town (cidades do pôr do sol ou cidades cinzentas), municípios ou bairros dominados por brancos que praticavam a segregação de forma extremamente violenta, existindo até relatos que após às 18h era permitido matar negros.

Felizmente, não vivemos no sul dos Estados Unidos na década de 50, onde as leis Jim Crow (atos que legalizaram a discriminação racial) imperavam e negros se viam alvos da própria justiça. Mas se não somos expulsos de cidades com policiais brancos na nossa cola, não posso dizer o mesmo de shoppings que só querem pessoas “de elite” em seus domínios ou lojas que sugerem que seus seguranças persigam jovens negros. Mesmo os pequenos são capazes de reproduzir esse comportamento, como vimos na Espanha, onde um grupinho expulsou uma criança negra do parque sem nenhum motivo aparente.

Outro momento impactante mostrado pela série foi a morte do pequeno Emmet Till, amigo da personagem Dee. Till foi mais um elemento real em um contexto ficcional. Na década de 50, o jovem, com apenas 14 anos, foi brutalmente assassinado por, supostamente, ter dito algo que soou ofensivo para uma mulher branca. Quem não conhecia a história de Till, se impactou (espero) com a forma cruel que se deu sua morte: espancado, mutilado, enforcado com um arame farpado e jogado em um rio amarrado a um descascador de algodão de 32 quilos. Sua mãe exigiu que o velório fosse feito com o caixão aberto para que vissem o que tinham feito com seu filho.

Emmet existe até hoje em várias crianças e adolescentes que perdem a vida sem motivo e de maneira violenta. Como na figura de João Pedro, também com 14 anos, morto por policiais, dentro de casa. O mapa da violência de 2016 mostra que um jovem negro é assassinado a cada 23 minutos: é um Emmet Till a cada 23 minutos, um João Pedro a cada 23 minutos.

A transformação da personagem Ruby, mulher negra, em Hillary, mulher branca, é outro ponto que pode ser visto somente como magia, como consequência de uma poção mágica. Mas esse olhar simplório nos faz crer que existe magia na vida real, afinal, vivemos décadas em que mulheres negras tentavam ao máximo mascarar suas características através de “poções” que alisavam os cabelos, desfaziam curvas, afinavam narizes.

A questão é que, assim como muitas pessoas na realidade, Ruby chega a conclusão que não é ela que tem que mudar, mas sim o mundo ao seu redor. Esse grito de liberdade se assemelha bastante a revolução das crespas, cacheadas, gordas que perceberam que um cabelo e um corpo podem ser símbolos de resistência e que não é preciso uma poção mágica para mudarem quem são. Ninguém deve habitar uma outra pele só para fazer o mundo sorrir.

Por último, o episódio em que Tic, Leti e Montrose viajam no tempo até o dia do massacre de Tulsa. Esse foi um dos eventos mais absurdos da história do racismo mundial. Ocorrido nos anos 1920, a região conhecida como Black Wall Street foi alvo do primeiro bombardeio aéreo da história dos EUA.

O motivo do massacre apareceu no episódio cinco, como um easter egg. Um jovem negro esbarrou em uma moça branca e a comunidade branca alegou que ela havia sido assediada por ele. No episódio, a personagem Hillary — que na verdade era a Ruby no corpo da mulher branca — negou que o menino tivesse feito algo a ela e a vida seguiu normal. Ali ficou claro como o massacre de Tulsa poderia ter sido facilmente resolvido, mas não foi.

No fim do episódio, Montrose lista negros e negras bem sucedidos em suas carreiras que morreram naquele momento por conta da ira dos brancos.

Imagine que moram no mesmo bairro Conceição Evaristo, escritora negra vencedora do Jabuti; Ingrid Silva, bailarina negra responsável pela criação que sapatilhas com a cor da pele negra; Caio Gomes, cientista negro trabalhando na poderosa Amazon, Emicida; rapper negro e fundador da Laboratório Fantasma; Lázaro Ramos, ator, escritor e primeiro apresentador negro a frente de um programa de auditório na Globo; Clara Elisabeth, dançarina negra e nordestina vencedora de um concurso nacional de bolero disputado no Rio de Janeiro; João Pimenta, primeiro negro a ter uma esquete solo no canal Porta dos Fundos; Isa, cantora negra unanimidade no cenário fonográfico atual, entre outros.

Seria como se perdêssemos essas pessoas incríveis de uma só vez por causa do racismo.

(Certa vez, escrevi ironicamente que negros não protagonizam narrativas sobre viagem no tempo por não quererem se confrontar com o passado. Esse episódio validou o meu argumento.)

Após esse passeio histórico, Lovecraft Country termina mostrando que alguns privilégios precisam ser compartilhados. A magia não pode ser algo só nas mãos dos brancos e, quando falo magia, quero dizer oportunidades, direitos básicos, olhar social, flexibilização da justiça. Há uma série de discrepâncias que, espero eu, contado no futuro soe como algo proveniente de uma ficção.

O que não nos serve é a alusão que mostra Tic como Jesus Cristo se sacrificando para que os negros consigam se igualar em algum aspecto aos brancos. Já teve muito sangue derramado, não dá mais pra achar que uma figura simbólica vai mudar todo um quadro. Vivemos em um Território Lovecraft, convivemos com monstros e suas garras.

No mais, foi uma boa série, mas isso é o que menos importa no momento.


Anderson Shon é escritor, professor, poeta, nerd e super-herói nas horas vagas. Autor dos livros Um Poeta Crônico e Outro Poeta Crônico. Escreve matérias para o jornal Voz da Favela, ministra um curso de escrita criativa: A Liga dxs Lanternas, expôs suas opiniões na coluna Black Nerd do Correio Nagô e tem um site de contos.