Precisamos de um Spike Lee brasileiro?

É necessário uma indústria de audiovisual que respeite as histórias que querem contar

Anderson Shon Publicado por Anderson Shon
Precisamos de um Spike Lee brasileiro?

Tenho perguntas pra você:

Qual diretor tem como característica a simetria e boas metáforas sobre política e sociedade? Se você falou Stanley Kubrick, está certo. Qual diretor adora diálogos difusos, verborrágicos e ama encher a tela com ketchup vermelho? Isso, isso, Quentin Tarantino. Agora, a última: qual o diretor, também documentarista e professor de cinema, faz filmes com forte carga racial, misturando o trágico e o cômico como um talentoso equilibrista de pratos? Vamos, eu sei que você consegue lembrar… Mais uma dica: ele é o cara que gosta de “Fazer a Coisa Certa”… lembrou? Estamos falando de Spike Lee, o diretor negro com a assinatura mais marcante da história de Hollywood.

Mesmo sem saber (provavelmente), Lee está fazendo parte de uma polêmica aqui no Brasil. A produtora da série sobre Marielle Franco, Antonia Pellegrino, disse em entrevista ao colunista Mauricio Stycer, que só entregou o projeto para o diretor José Padilha (homem e branco) porque “No Brasil não tem um Sipke Lee”. Nas redes sociais as reações foram do jeito que sempre são: polarizadas e cheias de certezas, dos dois lados.

Mas o Brasil precisa de um Spike Lee?

Lee é um cara bem peculiar. Ele conseguiu ser homenageado pelo Oscar com um prêmio honorário em 2006 (eita! Gafe, Oscar?) como se já tivesse dado sua carreira por encerrada. Como o destino adora uma boa zoação, em 2018 ele ganhou o prêmio pelo roteiro de Infiltrados na Klan — com certeza um dos melhores filmes da década — e sagrou-se o primeiro negro a ganhar na categoria.

No entanto, é Faça a Coisa Certa, seu filme de 1989, o de maior prestígio — e não é pra menos. A denúncia sobre como os negros eram tratados dentro de suas próprias comunidades e como o mercado de trabalho olhava para eles deixou os figurões de Hollywood de cabelo em pé. Os diálogos, as cores, os trejeitos, tudo ali já indicava como Spike Lee seria importante para fazer sobreviver toda a cultura de uma minoria num universo cinematográfico calcado no caucasiano.

Minorias precisam ser representadas, mas, exatamente por serem minorias, há uma escassez de material humano que, se eu fosse explicar o motivo aqui, isso iria virar um artigo científico. A questão é que não dá pra sobreviver só com um Spike Lee e o talentoso Jordan Peele — diretor de Corra! (2017) e Nós (2018) — percebeu que numa corrida de revezamento não se pode passar o bastão para si mesmo. Jordan Peele faz um cinema de terror racial sem precisar tencionar discursos. Como produtor, participou do premiado Infiltrados na Klan e está apostando na aterrorizante continuação espiritual de O Mistério de Candyman — a sequência sairá em junho de 2020 — e confiou o projeto para uma mulher negra dirigir, Nia Dacosta, mostrando que não se constrói um reino com um tijolo só.

E o que o Brasil tem feito nessa direção? A fala de Antonia Pellegrino mostra como é difícil encontrar diretores negros, não pela falta de qualidade, mas sim pela falta de oportunidade. Quando ela diz que procura um Spike Lee no Brasil, é como se uma empresa estivesse procurando um estagiário fluente em mil idiomas e que já tivesse experiência de um século. É a tal palha no agulheiro.

Currículo nós temos: Viviane Ferreira já participou de Cannes, Joel Zito Araújo, diretor em atividade desde a década de oitenta, Yasmim Thayná é vencedora de um prêmio da Academia Africana de Cinema. Apenas alguns nomes que poderiam ser alçados ao papel de “Spike Lee Brasuca” e que, assim como Pellegrino, parte da indústria de grandes produções ignora.

De todo modo, não acho que precisamos de um “novo Spike Lee”, de que alguém emule a história dele, escancarando portas, para que só assim seja reconhecido como um talento. Precisamos de um cinema e de obras audiovisuais com produtores executivos e showrunners que respeitem as características e a história de vida de seus diretores e das próprias obras que produzem.

Cineastas gostam de contar histórias, então, oportunizar pessoas pra contar sua “própria” história é um papel do cinema nacional e de todos que se propõem a fazer dele algo com o nosso DNA. Se caminharmos nessa direção, acredito que estaremos mais perto de Fazer A Coisa Certa. #WakandaForever


Anderson Shon é escritor, professor, poeta, nerd e super-herói nas horas vagas. Autor dos livros Um Poeta Crônico e Outro Poeta Crônico. Escreve matérias para o jornal Voz da Favela, ministra um curso de escrita criativa: A Liga dxs Lanternas, expôs suas opiniões na coluna Black Nerd do Correio Nagô e tem um site de contos.

O texto não reflete necessariamente a opinião do Jovem Nerd ou do NerdBunker.