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É chegada a Era dos BlackBusters

Lançamentos recentes provam que Brasil está pronto para uma nova onda nos cinemas

Anderson Shon Publicado por Anderson Shon
É chegada a Era dos BlackBusters

“…se a gente é igual em tudo, então nisso também vamos ser…”

Essa frase termina um dos diálogos mais incríveis do cinema nacional. No filme Ó Paí Ó (2007) de Monique Gardenberg, Roque (Lázaro Ramos) dá uma lição de moral em Boca (Wagner Moura) e termina seu discurso antirracista apontando uma obrigatoriedade à igualdade entre raças. A fala já nasceu épica, mas fica ainda melhor se olharmos com a metalinguagem, entendendo que aquelas palavras falam do próprio mundo do cinema e reverberaram tanto que agora podemos ver na prática um resultado animador… um não! Mais precisamente, dois. Vamos lá.

“O que é uma minoria?

Um grupo de pessoas que tem que trabalhar duas vezes mais pra conseguir a metade.”

Master Of None, 2015

Muito já foi teorizado sobre a falta de representatividade negra e limitação de personagens negros no cinema. Todos esses debates e constatações nos fizeram chegar a um momento de quebra de paradigmas e escolhas criativas que tendem a criar um novo cenário no audiovisual. Essa revolução teve seu primeiro vislumbre na década de 1970 com o Blaxploitation, depois em 1990 com a ascensão de cineastas como Spike Lee e, mais recente, com Jordan Peele e Ryan Coogler levando ao cinema filmes muito longe do estereótipo fincado na comunidade negra.

O Brasil demorou a surfar essa onda, mas agora com Marighella (2019) e Medida Provisória (2020) podemos ver um cinema negro que se distância das favelas e das narrativas de criminalidade, quebrando as correntes da limitação, de ser o que esperam de nós. É a era dos BlackBusters, o cinema preto sem limite.

Imagem do longa Medida Provisória, que está em cartaz nos cinemas
Imagem do longa Medida Provisória, que está em cartaz nos cinemas

“Devemos nos unir e devemos nos organizar para formar uma base para combater o racismo.”

Infiltrado na Klan, 2018

Já imaginaram como seria um The Handmaid’s Tale afrorracial? Talvez essa seja a forma mais fácil de explicar o quão impactante é Medida Provisória, mas não estou aqui para resenhar o longa. O filme de Lázaro Ramos traz aspectos subjetivos e objetivos que se conectam com a nossa sociedade, através de uma narrativa que dispensa o foco no clichê de negros segurando armas ou falando gírias e palavrões.

A sensação que tenho é que Cidade de Deus (2002) foi ótimo e péssimo ao mesmo tempo – e nenhuma das qualidades está associada ao filme em si, mas ao cenário que ele criou e as expectativas construídas diante de um cinema nacional com maioria preta no elenco. Medida Provisória é um respiro e tanto contra esse maldito estereótipo. E se você acredita que esse estereótipo não existe, me diga: se eu te disser que Seu Jorge, Fabrício Boliveira e Babu Santana vão protagonizar um filme, você imagina um gênero de fantasia em uma terra encantada ou ação com invasão de favelas?

“Ele era negro, e negro negro negro e negro muito negro mesmo. E usava negro e mancava muito negro e aqui também negro. E andava negro.”

Todo Mundo Odeia o Chris, 2005

A retomada da popularização do cinema nacional trouxe consigo uma série de cinebiografias amarradas ao sucesso que Cazuza – O Tempo Não Pára (2004) alcançou. Tivemos Lula, o Filho do Brasil (2009), Chico Xavier (2010), Bruna Surfistinha (2011), Heleno (2011), Somos Tão Jovens (2013), de Renato Russo, Getúlio (2014), Chacrinha: O Velho Guerreiro (2018), Nada a Perder (2018), de Edir Macedo, entre outros.

O que todas essas pessoas tem em comum? Tirando Gonzaga: De Pai pra Filho (2012) e Tim Maia (2014), esse boom trouxe consigo uma maioria esmagadora de personalidades brancas com suas histórias brancas. Marighella, de Wagner Moura, fez bastante sucesso, principalmente com a crítica, e abriu um caminho para que produtoras busquem personalidades negras que participaram da formação cultural do país. O sucesso do filme ainda pode trazer luz a outras cinebiografias com personagens negros que são ótimas, mas não tiveram muito destaque, como Legalize Já – Amizade Nunca Morre (2017) e Doutor Gama (2021).

Imagem de Legalize Já - Amizade Nunca Morre
Imagem de Legalize Já – Amizade Nunca Morre

“Se você fosse negro, ninguém daria a mínima para o que você pensa.”

Mississipi em Chamas, 1988

Os BlackBusters têm tudo para virar a nova tendência do cinema nacional. Os debates deixaram de ser ensimesmados e aparecem em locais onde antes não se imaginava dialogar sobre a quebra de correntes dos negros no audiovisual.

Agora sabemos que temos nossos próprios representantes e que podemos falar de amor, fantasia, distopia, terror… Aprendemos que podemos falar do que quisermos falar. O cinema sempre foi um local de imaginação e não de limitação.

Preparem-se, a era dos BlackBusters está chegando! Pegue sua pipoca e seu refrigerante, pois o filme já vai começar.

#WakandaForever

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