Por que eu jogo Animal Crossing?

Uma piada que fiz quando o jogo foi anunciado acabou se tornando realidade

Priscila Ganiko Publicado por Priscila Ganiko
Por que eu jogo Animal Crossing? Essa é a praça central de Pudim, minha ilha no ACNH

Quando Animal Crossing New Horizons foi anunciado durante a E3 2019, falei para meus amigos que ia demorar para eles me encontrarem de novo após o lançamento do jogo. Na época, não imaginava que fosse acertar e errar ao mesmo tempo.

Minha experiência com a franquia começou no New Leaf, para Nintendo 3DS. Assim que comprei, fiquei uns bons meses sem sair muito, investindo meu tempo livre em tornar a cidade da qual me tornei prefeita o mais habitável possível. Também queria quitar a minha dívida aparentemente infinita com o implacável Tom Nook, personagem que me incentivava a expandir minha casa e me oferecia a possibilidade de pagar cada novo cômodo aos poucos, sem limite de tempo — e sem juros.

Depois de extorquir todo o meu dinheiro em New Leaf, ele está de volta

Animal Crossing New Horizons pode ser descrito como uma mistura de Stardew Valley com Harvest Moon em uma ilha que era deserta, mas que vai ficando populosa progressivamente. As mecânicas envolvem certa dose de gerenciamento de cidade, decoração de interiores, conversas com animais antropomórficos fofinhos, e o seu principal objetivo é viver ali. Começando com uma tenda, o jogador é convidado a desfrutar das maravilhas de uma ilha deserta, como pescar e caçar insetos, mas não demora muito para transformar o local em uma cidade com lojinhas e até dez habitantes.

Para chegar até essa fase, porém, o jogador tem que ser paciente. Alguns eventos marcantes, como a construção de um museu e reformas da prefeitura, levam um dia inteiro para acontecer, obrigando o jogador frenético, que está acostumado a fazer tudo correndo e até mesmo a acelerar o processo, pagando por isso, a fazer algo quase impensável nos games atuais: esperar.

O ritmo mais lento é um dos grandes trunfos do jogo. Ao invés de deixar os jogadores pilhados para terminarem tudo o mais rápido possível, Animal Crossing é uma forma de exercitar a paciência, e isso se reflete até mesmo nas tarefas mais triviais do título: aguardar um peixe morder a isca, um escorpião abaixar a guarda ou até mesmo o fim da da construção de uma ponte.

O texto do jogo está repleto de trocadilhos bobinhos e esbanja um humor meio “tio do pavê ou pacumê”. Isso se torna ainda mais aparente ao conversar com os personagens, os villagers, que apresentam personalidades diferentes, e vícios de linguagem divertidos. Os animais que vão morar na ilha são interessantes, e agem bastante por conta própria, passeando pelo lugar, conversando e por vezes até brigando entre si (e cabe ao jogador fazer o trabalho de reconciliação, claro).

Uma reunião de villagers na praça principal

Lançado em 20 de março de 2020, New Horizons acabou chegando no início do isolamento social de muitos países por conta da COVID-19, incluindo o Brasil. Com mais de 5 milhões de cópias digitais vendidas no primeiro mês, Animal Crossing foi o jogo mais vendido do mês nos consoles e contribuiu para o impressionante número de US$ 10 bilhões de receita em vendas de jogos digitais (veja aqui).

Em uma época que as pessoas normalmente buscariam uma maneira de se divertir sem sair de casa, a tranquilidade e o humor bobo do jogo caíram como uma luva para quem precisa esquecer um pouco o mundo lá fora, e é aí que outro aspecto de Animal Crossing entra em ação: a comunidade.

Diversas atividades do jogo podem ser realizadas por uma única pessoa, mas tudo se torna muito mais divertido (e, por vezes, lucrativo!) quando se está em contato com mais jogadores. Se a sua loja estiver fechada por causa de uma reforma, você pode usar a loja do amiguinho. Vender frutas, um dos alicerces da economia do jogo, é muito mais lucrativo se você vender em outra ilha: as frutas que não são nativas valem mais dinheiro, portanto, basta visitar alguém cuja fruta seja diferente da sua para garantir mais Bells, a moeda do jogo.

Outras mecânicas da franquia incentivam o encontro de jogadores virtualmente, como personagens não-jogáveis que vendem itens exclusivos e aparecem sem aviso nas ilhas, e até mesmo eventos sazonais como o Torneio de Pesca, que soma os pontos dos participantes que estiverem na mesma sessão.

O mercado de nabos, os infames turnips que funcionam como ações no game, fizeram até mesmo o ator Elijah Wood, que interpretou Frodo em O Senhor dos Anéis, entrar na ilha de uma pessoa para vender e garantir uma maior quantidade de Bells (confira clicando aqui!). A atriz Brie Larson compartilhou imagens de jogadores fazendo cosplay da personagem Capitã Marvel dentro do jogo (veja aqui).

Há também histórias de aquecer o coração, como a senhora de 87 anos que é tão fã da franquia que acabou virando uma villager em New Horizons (leia aqui) e um casal que teve seu casamento cancelado por conta da pandemia, mas fez uma cerimônia simples dentro do jogo para celebrar a união (saiba mais aqui).

O aeroporto da ilha permite que você convide qualquer pessoa que tenha acesso às funções online para visitar sua cidade, esteja ela adicionada na sua lista de amigos do Nintendo Switch ou não. Cabe ao anfitrião decidir se quer apenas visitantes conhecidos ou se quer criar um código que dá acesso a qualquer jogador.

Para acessar as funções online e se comunicar com outras pessoas diretamente pelo jogo, é necessário ter uma assinatura do Nintendo Online, serviço da empresa para liberar o multiplayer via internet e outras funções como o compartilhamento de designs personalizados e a utilização do aplicativo para chat de voz e de texto.

A Priscila de 2019 não tinha a menor ideia de que ia encontrar tantos amigos virtualmente em New Horizons, e muito menos que passaria horas usando aplicativos para conversar por voz e pescar, mudar todas as árvores da ilha de lugar, comentar o preço do nabo em grupos de criados única e exclusivamente para falar sobre o jogo. Não imaginei que faria festas do pijama virtualmente com as amigas, comemoraria aniversários e ficaria horas (literalmente horas) olhando para o céu virtual esperando estrelas cadentes caírem…

Apesar de ter certeza de que estaria fritando no Animal Crossing e jogando loucamente, ainda que não houvesse a necessidade do isolamento social, encontrar os amigos (e até conhecer gente nova!) através do jogo tem funcionado muito bem como forma de auto preservação. New Horizons traz um escapismo inofensivo, que ajuda a construir laços e sair um pouco da bad vibes do mundo lá fora. Lavem as mãos, usem máscaras, não saiam de casa e venham conhecer Pudim, minha ilha!