Novo Superman é bissexual e que bom que o mundo não é mais como “antigamente”

Com um novo ataque à representatividade nas HQs, é hora de explicar por que "antigamente não era assim"

Gabriel Avila Publicado por Gabriel Avila
Novo Superman é bissexual e que bom que o mundo não é mais como

As histórias em quadrinhos são cheias de grandes batalhas, mas uma das maiores vem acontecendo fora das páginas. Basta editoras como Marvel ou DC darem destaque a personagens que pertencem a alguma minoria para que surjam protestos contra a representatividade. A revolta mais recente aconteceu com a revelação de que Jonathan Kent, o atual Superman das HQs, é bissexual.

Quando o personagem em questão é LGBT+, é comum o uso do clichê “antigamente não era assim”. O que esse argumento esconde, é que a ausência de personagens abertamente gays e com grande destaque nos universos das grandes editoras foi resultado de uma proibição antiga, criada por anos de censura e ataques à liberdade. Mas para entender a questão, é preciso voltar ao passado, mais precisamente ao século XVI.

A legislação norte-americana, de 1533, foi importada da Inglaterra e condenava as práticas homossexuais. Como tentativa de buscar embasamento bíblico e de marginalizar as pessoas LGBT+, essas normas foram batizadas de “Ato de Sodomia” e em linhas gerais criminalizaram a homossexualidade com penalidades que variavam de prisão a pena de morte.

A essa altura, talvez você esteja surpreso ao descobrir que algo desse tipo realmente existiu, mas fica ainda mais chocante saber que essas leis absurdas só começaram a ser revogadas em alguns estados no ano de 1962. Nessa altura, o Batman e o Superman já existiam há mais de vinte anos, o Quarteto Fantástico havia acabado de ser criado e equipes como X-Men e Vingadores ainda não existiam. Dessa forma, é difícil imaginar a criação de heróis LGBT+ no período em que a prática era considerada crime na maior parte do país. Especialmente porque naquela época, as próprias HQs já tinham sido alvo de uma verdadeira caça às bruxas.

Primeira aparição do Superman em 1938 e HQ do Quarteto Fantástico de 1961

Em 1954, o psicólogo alemão Fredric Wertham publicou um livro chamado Sedução do Inocente, cujo conteúdo trazia informações imprecisas ao relacionar os quadrinhos à delinquência juvenil e a homossexualidade. Um dos grandes alvos da publicação foram Batman e Robin, apontados como uma clara alusão a um casal gay — lembre-se, em um período em que relações homossexuais eram crime em boa parte do território norte-americano.

O sensacionalismo de Wertham levou pânico aos lares do país e um impacto direto nas editoras. No mesmo ano, foi criada a Comics Magazine Association of America (CMAA), uma associação de autocensura que revisava todas as HQs com base no Comic Code Authority — conhecido no Brasil como Código dos Quadrinhos. Código esse que foi criado com base nas denúncias do livro Sedução do Inocente e proibiam uma série de regras para “proteger” os leitores de más influências. E como o esperado, esse código proibia qualquer menção à homossexualidade nas histórias.

Primeira aparição do Robin em 1940

O código dos quadrinhos só começou a perder força no início dos anos 1970, quando a Marvel e a DC publicaram HQs sem o selo de aprovação da CMAA ao abordarem o tema da dependência de drogas. Por mais históricas que sejam, essas publicações representaram apenas os primeiros passos contra a repressão do código dos quadrinhos. Esses sinais de mudança surgiram no período em que os Estados Unidos começou a rever a legislação anti-LGBT+, entrando na década de 1980 com a homossexualidade descriminalizada em 20 de seus 50 estados.

A inevitável mudança

Enquanto no mundo real os estados norte-americanos aboliam uma legislação completamente absurda baseada apenas em preconceitos, começaram a surgir os primeiros personagens homossexuais nos quadrinhos mainstream. Isso porque publicações independentes e de contracultura já traziam histórias e personagens LGBT+, que não buscavam a aprovação do código por não serem direcionadas ao público infantil.

Já nos universos da Marvel e da DC, foram surgindo de forma tímida, e por vezes desastrosa, graças à maneira estereotipada como foram tratados ou à interferência editorial. É famosa a história do Estrela Polar, mutante que deveria ser abertamente homossexual desde a criação em 1979, mas, por uma postura preconceituosa do editor-chefe da Marvel Jim Shooter, só pôde dizer com todas as letras que é gay em 1992.

Estrela Polar, o primeiro herói a dizer abertamente que é gay no Universo Marvel

Porém, Estrela Polar conseguiu sair do armário em um período importante para o surgimento de mais histórias com personagens abertamente LGBT+ nos quadrinhos. Além de personagens de apoio em títulos como Lanterna Verde, Flash, Patrulha do Destino e X-Men, o destaque fica por conta da maior diversidade nas HQs da Vertigo, o selo de quadrinhos adultos da DC Comics.

Alguns dos maiores clássicos da linha deram destaque para personagens e enredos declaradamente LGBT+. John Constantine, astro de Hellblazer, é bissexual; Os Invisíveis, de Grant Morrison, tinha como uma de suas principais integrantes Lord Fanny, uma mulher transexual. Sandman, de Neil Gaiman, também é lembrado pela história de Wanda, outra mulher transexual.

John Constantine e Lord Fanny, dois exemplos da comunidade LGBT+ na Vertigo

Assim, as editoras foram aos poucos tomando coragem para apresentar heróis assumidamente gays, como foi o caso de Meia-Noite e Apolo, as versões de Batman e Superman do universo WildStorm. Essas mudanças acompanharam as que estavam acontecendo no mundo real, já que em 2003 as vergonhosas leis que citavam “Ato de Sodomia” finalmente foram derrubadas no país inteiro por serem consideradas inconstitucionais.

O reflexo nos quadrinhos começou a acontecer quase instantaneamente, com o aparecimento de personagens assumidamente LGBT+ desde o início. Alguns exemplos são Wiccano e Hulkling, dos Jovens Vingadores e a Batwoman Kate Kane. A partir daí, alguns personagens também foram oficializados como parte da comunidade LGBT+. É o caso de Mulher-Maravilha, Arlequina, Mulher-Gato e Mística como bissexuais, Homem de Gelo e Hércules como gays e Loki como gênero fluído.

Vale notar que grande parte dessas confirmações não podem ser vistas como “mudanças”, pois assim como o Estrela Polar, muitos deles foram impedidos por anos de serem escritos como abertamente LGBT+. O roteirista Chris Claremont afirma que sempre quis deixar explícito o romance entre Mística e Sina, assim como faz todo o sentido que a Mulher-Maravilha tenha se apaixonado por algumas das Amazonas em seu longo período em Themyscira.

O casamento entre Meia-Noite e Apolo, Mulher-Maravilha canônicamente bissexual e o primeiro beijo entre Hulkling e Wiccano

E é assim que chegamos em um período em que a diversidade não precisa mais se esconder em sugestões e subtextos. Se a sociedade avançou — ainda que a passos lentos –, é natural que a arte reflita isso. Especialmente porque a mudança também começou a acontecer fora das páginas, com mais autores e artistas LGBT+ recebendo espaço para contar histórias.

Dessa forma, o descobrimento do Robin Tim Drake e do Superman Jonathan Kent como bissexuais passa longe de ser “forçado” ou algo que o valha. É simplesmente um sinal de que a evolução continuará a acontecer nos quadrinhos também. Há quem questione a razão para o surgimento desses personagens como apenas uma nova maneira das editoras lucrarem, mas isso é conversa para outra hora. No momento, fica celebração de mais uma iniciativa a favor da diversidade.

Mas e as crianças?

Antes de encerrar, é importante refletir também sobre o argumento de que a presença de super-heróis LGBT+ pode influenciar as crianças. Esse raciocínio é raso e desonesto, tentando implicar que os pequenos podem “querer imitar” o que veem nas revistas ou coisa parecida.

Sexualidade não é uma escolha. Pessoas são o que são e isso pode ser corroborado por inúmeros estudos, desde a Universidade Federal de Minas Gerais até cientistas da Finlândia. Dessa forma, tudo o que um Superman bissexual pode “ensinar” a um pequeno leitor é respeito e aceitação ao próximo e prepará-lo para conhecer pessoas de diferentes orientações — ou até mesmo ajudá-lo a se aceitar caso chegue a hora de se descobrir fora do padrão heteronormativo.

Jonathan Kent, o novo Superman do Universo DC

É claro que se preocupar com as crianças é necessário, os pais precisam ficar atentos ao que os filhos consomem. Mas a questão nesse caso não é se um personagem é LGBT+, mas sim se o conteúdo consumido está de acordo com a classificação indicativa para a idade. Esse cuidado, por exemplo, ajudaria a evitar casos como o de uma escola no Rio de Janeiro que teve de alertar aos pais que os filhos estavam assistindo a Round 6 — série da Netflix para maiores de 16 anos cujo conteúdo inclui violência gráfica e sexo, por exemplo.

Infelizmente essa preocupação só é externada quando convém, quando pode ser transformada em forma de oprimir e agredir o próximo. Não à toa vemos pessoas com muito alcance nas redes sociais que nunca consumiram ou falaram sobre HQs, vociferando contra a sexualidade de um personagem fictício.

Seja para agradar aos eleitores que cultivam o mesmo tipo de preconceito, seja para desviar a atenção dos vários problemas reais que afligem o país — e o mundo –, essa prática apenas reforça a importância de heróis como Superman, Robin, Batwoman e muitos, muitos outros como combatentes de preconceito e intolerância, vilões antigos que estão fadados a perder.

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