Brooklyn Nine-Nine e a importância de contar uma história com o coração no lugar certo

Série foi encerrada na oitava temporada por um motivo importante

Camila Sousa Publicado por Camila Sousa
Brooklyn Nine-Nine e a importância de contar uma história com o coração no lugar certo

Há décadas o entretenimento conta histórias policiais. Desde os filmes de ação com duplas de agentes, até séries dramáticas com o dia a dia das delegacias, a rotina de investigação e luta contra o crime sempre cativou o público e rendeu boas histórias – o que também tornou desafiador inovar dentro do gênero.

Porém, em setembro de 2013, a Fox lançou Brooklyn Nine-Nine, um seriado com foco no humor, protagonizado por Andy Samberg, já conhecido do público americano por conta do Saturday Night Live. O ponto central da série era o embate entre o imaturo Jake Peralta (Samberg), que sempre romantizou a profissão de policial, com Raymond Holt (Andre Braugher), um capitão sério que queria mudar o dia a dia da 99ª delegacia do Brooklyn, em Nova York.

Pela sinopse acima, a série não teria muitos motivos para se destacar além do humor, mas o que fez Brooklyn Nine-Nine ser diferente e conquistar tantos fãs é que a produção sempre teve o coração no lugar certo – e isso fez toda a diferença desde a estreia, até a temporada final.

Ainda que o humor fosse o foco dos episódios, com Samberg utilizando as ótimas piadas dele sempre que possível, a produção deixou claro desde o começo que tinha um interesse especial em desenvolver os personagens além das camadas superficiais.

Jake, por exemplo, era sim um cara imaturo em certos momentos, que deixava a emoção e o desejo de estar em um filme de ação falar mais alto, mas ele amadureceu: com o decorrer dos episódios, o policial aprendeu que as ações dele poderiam ter impactos positivos e negativos para ele e para os colegas da 99. Embora nunca tenha perdido o jeito atrapalhado de ser, ele cresceu na frente do público e se tornou mais querido a cada temporada.

Terry e seu iogurte matinal

Quando falamos sobre séries policiais, também é comum a associação com figuras masculinas tradicionais, com homens impacientes e “brucutus”, que querem resolver todos os problemas com armas e força física. Mas Brooklyn Nine-Nine nunca foi assim e provou que é possível ter uma série com figuras masculinas positivas. Além da evolução do próprio Jake Peralta, Terry Jeffords (Terry Crews) é outro ótimo exemplo de um bom desenvolvimento de personagem.

Se seguisse os caminhos clássicos das séries policiais, Brooklyn Nine-Nine poderia ter transformado o personagem nessa figura pautada apenas pela força física, especialmente porque Crews é um dos atores mais fortes fisicamente do elenco. Mas Dan Goor, criador da produção, escolheu fazer de Terry um homem real: que tem sim momentos de impaciência, mas que também é um pai amoroso para as filhas e adora tomar um iogurte matinal. Terry não é um policial idealizado, ele é uma pessoa real, e por isso é tão fácil gostar dele.

Ao longo das oito temporadas, Brooklyn Nine-Nine equilibrou muito bem os (vários) momentos de humor, algumas cenas de ação policial, e temas que fazem parte da sociedade atual, como racismo, bissexualidade, adoção, assédio no ambiente de trabalho, entre outros. E como todos os personagens se tornaram queridos por serem retratados de uma forma tão real, não era raro ficar na frente da tela torcendo para que eles conseguissem superar tudo isso.

Começo do fim

Imagem promocional da última temporada

Quando a Fox cancelou a produção em 2018, uma legião de fãs se reuniu nas redes sociais, incluindo nomes famosos como Lin-Manuel Miranda, para que a série encontrasse renovação em uma nova casa e foi o que aconteceu – em um espaço de 24h, Brooklyn Nine-Nine foi cancelada e resgatada, continuando a jornada no canal NBC – mas ela não foi tão longa quanto os fãs esperavam.

Em 2020, além da pandemia de COVID-19, que representou um desafio para o mundo inteiro, aconteceu o assassinato de George Floyd, morto asfixiado por um policial em Mineápolis, nos EUA. O crime desencadeou os protestos do movimento Black Lives Matter e a oitava temporada de Brooklyn Nine-Nine, que já estava em desenvolvimento, foi totalmente alterada para incluir o tema nos episódios.

“Temos uma oportunidade e planejamos usá-la da melhor forma possível”, afirmou Terry Crews ao Access Hollywood na época, indicando que a produção queria usar a própria influência e sucesso, mais uma vez, para falar de um tema importante.

A diferença é que falar sobre violência policial em uma série policial focada no humor, poderia facilmente tomar o caminho errado. No meio de toda a leveza de Brooklyn Nine-Nine, seria necessário ter um momento para falar sério sobre algo muito próximo aos personagens. Por isso, o canal NBC e os produtores chegaram à conclusão de que era a hora de encerrar a história.

“Estamos todos discutindo como fazer uma série de comédia sobre a polícia neste momento, e se podemos fazer isso de uma forma que todos se sintam moralmente bem. Sei que vamos descobrir, mas é definitivamente um desafio, então vamos ver no que vai dar”, afirmou Samberg à People em julho de 2020, já indicando que as discussões internas sobre a continuação da série estavam acontecendo.

Quando a oitava temporada foi anunciada como a última, muitos fãs ficaram com coração apertado, afinal, como acontece com vários seriados, tinha chegado a hora de se despedir de Jake, Amy, Holt e cia. Os primeiros episódios do ano final da série, exibidos no Brasil pela Warner Channel, já mostram que a 99 está diferente, com Rosa Diaz (Stephanie Beatriz) trabalhando fora da delegacia, ao lado das pessoas que denunciam abusos policiais.

Encerrar uma série com uma trajetória tão incrível como Brooklyn Nine-Nine não é uma tarefa fácil, ainda mais diante dos acontecimentos recentes sobre as forças policiais nos EUA e no mundo. Mas Dan Goor e a equipe de produtores mostraram mais uma vez que estão com o coração no lugar certo e entenderam que é melhor finalizar a produção de uma forma justa com os fãs, do que esticar a história mais do que o necessário, e de uma forma que poderia soar ofensiva em algum momento. Para quem está do outro lado da tela, só resta aplaudir, mais uma vez, os feitos da 99. Nine-Nine!

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