Resident Evil é a melhor-pior franquia de filmes da história do cinema

Seis longas, mais de um bilhão de dólares nas bilheteria, e o final que o público merecia

Pedro Duarte Publicado por Pedro Duarte
Resident Evil é a melhor-pior franquia de filmes da história do cinema

A franquia de filmes de Resident Evil é a melhor-pior franquia da história do cinema, mesmo que Star Wars tenha se esforçado muito pra ganhar esse posto, principalmente com o encerramento da trilogia mais recente.

Os seis filmes, juntos, faturaram mais de um bilhão de dólares. Além disso, teve romance no ar: o diretor Paul W. S. Anderson conheceu a atual esposa, Milla Jovovich, durante a filmagem do primeiro longa, Resident Evil: O Hóspede Maldito (2002). Desde então, a dupla seguiu com a dedicação implacável de fazer, a cada novo longa, o melhor-pior filme possível.

Nada pode ser salvo, principalmente quando combinados os seis títulos. O roteiro é terrível, as atuações são sofríveis, a continuidade entre um longa e outro só existe quando convém à preguiça dos roteiristas, os efeitos especiais são pobres. Combinar tantas qualidades-defeitos, infelizmente, não é algo tão raro na história do cinema, mas Resident Evil ostenta.

Finalmente, em 2016, tivemos o encerramento tão bom-ruim quanto merecíamos, em Resident Evil 6: O Capítulo Final. A franquia chegava ao auge, uma catarse esquisita com muitas coisas bizarras. Em uma hora e quarenta e sete minutos, recebemos uma quantidade escancarada de desprezo por nossa inteligência de fazer inveja a propagandas políticas.

E é por essa razão que essa é a melhor-pior franquia de filmes de todos os tempos, um clássico feito sob medida para ser ruim em qualquer ocasião. Uma série que não exige nada do espectador, nem mesmo que ele lembre o que aconteceu de um filme para o outro. Nada. Só que você ligue a TV (ir ao cinema, já seria pedir demais a você, querido leitor) e esqueça da vida.

Em tempos de pandemia e de uma tristeza absoluta a cada nova notícia, é paradoxal que o alívio chegue justamente em uma série de filmes que fala sobre o fim da humanidade, justamente por causa de um vírus. O segredo está nos monstros absurdos, na ação tosca, na câmera lenta usada milhões de vezes e no tanto de talento investido em toda a criação somente para colocar você, o espectador, em seu devido lugar — como diriam os comunicadores de antigamente: um “receptor passivo.”

Ao assistir à qualquer Resident Evil você pode fazer muitas coisas em paralelo: você pode tuitar, ir ao banheiro, cozinhar alguma coisa ou só abrir a geladeira e não encontrar nada, comer uma banheira de pipoca — só não pode sair de casa, pelo menos por um tempo. Não há surpresas, a trama é rasa e linear, você já sabe desde a primeira cena. Maravilhoso-terrível!

A dupla fatal ataca novamente

E em que gênero se encaixa essa franquia? Terror? Sci-fi? Ação? Ora, é tudo isso e mais um pouco! Mas não é por acaso, é uma escolha. É a vontade de fazer com que seja um pouco de tudo — e o melhor-pior possível em cada gênero que propõe.

Sendo sincero, o primeiro longa é passável — um equivoco no caminho para o sucesso-desastre completo, que foi traçado com maestria a partir da continuação, Resident Evil 2: Apocalipse (2004). Afinal, é uma franquia baseada em um jogo de videogame: até recentemente, havia uma tradição a ser mantida. Um filme de jogos tinha que ser ruim. O longa de 2002 quase quebrou esse pacto. Ainda bem que Anderson e Jovovich encontraram o caminho (e o amor!) desde então.

E, assim, de 2004 em diante, personagens apareceram e desapareceram sem explicação, a protagonista passou a ter poderes (mas depois não, e vice-versa), o figurino resolveu trazer mais detalhes dos jogos e se tornou algo ainda mais estiloso-brega. Um deleite para quem não se propõe a analisar nada e quer comer pipoca em paz.

O último filme, que tenta amarrar tudo e é ainda mais megalomaníaco, consegue a proeza de concluir com maestria-imperfeição tudo o que propôs durante 14 anos e ainda ser processado judicialmente. A dublê de Milla Jovovich, Olivia Jackson, alega falta de cuidado nos bastidores. Ela acabou perdendo um braço e ficou em coma induzido por vários dias (leia mais aqui).

De todo modo, talvez nunca mais tenhamos algo tão escancaradamente bom-ruim como os filmes de Resident Evil. Ainda há muito espaço para coisas excelentes-péssimas (nunca vai faltar) e a indústria do cinema se alimenta de requentar fórmulas de roteiro, arquétipos de personagens, formas de filmagem. Com algumas exceções, claro.

Mas, para o bem-mal, a dupla está confirmada em mais um filme. E — não podia ser diferente — é mais uma adaptação de um jogo de videogame. Dessa vez, o alvo é Monster Hunter — que já teve algumas fotos divulgadas (veja aqui) e deve estrear no Brasil no dia 3 de setembro.

Diante das imagens, dá para inferir que o casal fatal continua forte na missão de ganhar dinheiro a custas dos fãs dos jogos e de pessoas inocentes encantadas por um trailer e que podem pagar por um ingresso sem saber o que o que vem por aí. Os dois seguem firmes na jornada de entregar o pior-melhor filme possível, para a alegria-tristeza daqueles que, assim como eu, defendem que precisamos desligar a mente de vez em quando. Nem sempre, claro. Mas, de vez em quando, não faz mal — desde que se saiba aonde está se metendo, porque até aceitar ser feito de idiota deve ser uma escolha.


Pedro Duarte é editor-chefe no NerdBunker. Trabalha com jornalismo cultural e tecnologia há dez anos. Já colaborou com publicações diversas e palestrou em eventos em todo o Brasil sobre jornalismo, cultura pop e internet. É autor de três livros. O mais recente, Gastaria Tudo com Pizza, saiu em dezembro de 2019, pela editora Pipoca & Nanquim.