Por que você quer seguidores?

Quando até um "errinho de português" tem um propósito, fica a questão: quem controla sua arroba no Twitter?

Pedro Duarte Publicado por Pedro Duarte
Por que você quer seguidores?

Vez ou outra, uma pessoa posta algo diferente no Twitter: um meme, um vídeo, uma frase interessante, que viraliza. A pessoa, até então, tinha uma vida normal na rede. Vamos chutar uns 200 seguidores. A maioria amigos, conhecidos, colegas de trabalho, etc. Mas, de repente, vê os números de uma postagem crescendo: mil, dois mil, quarenta mil RTs. Hitou! Agora vai! Mas vai pra onde?

Virou regra que a pessoa responda ao tuite felizardo, pedindo para ser seguida em outra rede social, mostrando portfólio, o podcast, ou até biscoitando. “Aproveitando, comprem meu Tal Livro nesse link”, coisas assim.

Com o hit, a pessoa passa a tuitar mais, a tentar chamar atenção, a manter o “sucesso”, surfar na novidade. Parece mesmo uma oportunidade: virar influenciador! Mas não consegue os mesmos resultados. Resta retornar à rotina de falar com seus bons e velhos 200 seguidores, ter dois likes e, se der tudo certo, um RT. Acabou.

Nessa mesma onda de buscar uma sobrevida ou finalmente “ficar famoso”, há quem pegue material feito por outras pessoas e aí tente viralizar. Basta ver as respostas a um vídeo que está ficando popular: arrobas de bots para download de conteúdo por todos os lados.

A ideia é pegar o tal vídeo, baixar e postar na sua própria conta, com sua arroba estampada. Se deu certo com Fulano, se você postar também, ora, com certeza vai viralizar!

E pode até dar certo. Pode hitar! Eita! Mas pra quê?

Primeiro que ter um tuite que viralize não significa que você ganhará novos seguidores. Não é assim que se constrói uma comunidade. Muitas vezes quem retuita aquele meme ou frase engraçada nem olha o “autor.”

Segundo que viralizar com material dos outros é legal? É isso que você quer? Você quer ser famoso a qualquer custo, um kibador conhecido? Se for isso, pode dar certo infelizmente (vamos chegar lá.)

Dá para ganhar dinheiro com Twitter, claro. Você pode monetizar vídeos, tuitar conteúdos pagos por marcas, usar seus números a seu favor. Não é fácil, exige mais do que um tuite de sucesso: precisa gerenciar sua arroba como uma marca.

Dessa forma, há diversos tipos de tuiteiros profissionais. Destaco quatro: os que produzem conteúdo e são reconhecidos por isso; os que roubam conteúdo e também faturam com isso (porque as marcas ainda não se importam muito), os que já eram conhecidos de outras mídias e lugares, mas que também têm números significativos no Twitter. Tudo isso pode gerar grana.

E o quarto tipo, o que explora as polêmicas do dia, sempre atento aos TTs, comentando sobre todos os assuntos: de vulcão a cortina de artista, de pauta identitária a marca de TV que dá defeito. Usam e abusam do famigerado RT comentado.

Essa, inclusive, é a ferramenta fundamental para o fim do diálogo. Qualquer argumento é reduzido a nada. Palco para os sofistas, para os que querem vencer, expôr os outros, cancelar e não debater. Sem dúvida, a ferramenta mais utilizada de forma negativa pelo tuteiro tipo quatro.

É sucesso garantido: um RT comentado de alguma frase idiota dita por algum político, de uma manchete infeliz, etc., com certeza vai te render muitos RTs, likes e essa coisa toda. Mas vai render muito mais engajamento e notoriedade para a pessoa ou veículo que foi o seu “alvo”. Isso quer dizer que, quem controla essas contas sabe como as pessoas se comportam. E todos tiram proveito de você. Usam suas opiniões, muitas vezes reproduções de algo que está virando senso comum, para crescerem na rede. Até um “errinho de português” tem um propósito nas entrelinhas.

Quantas vezes você ficou conhecendo alguém de quem nunca tinha ouvido falar porque “apareceu” na sua timeline?

Você é usado pelo político, pelo artista, pelo influencer polêmico, enfim. E, assim, o Twitter se retroalimenta: se omitindo de resolver denúncias, de aplicar políticas efetivas para tornar a rede melhor. Você se torna parte de uma cadeia. A polarizacão, de certa forma, ajuda o Twitter — e vice-versa.

Por isso eu pergunto por que você precisa de mais seguidores, de hitar? Como isso afeta a sua vida real, palpável? Aquela frase escrita de madrugada gerou milhares de interações. Ótimo! Você precisa dar outro passo?

A grande questão é quem está no controle dos seus atos na internet de maneira geral. Além dos algoritmos, de filtros de conteúdo, há uma manipulação de pensamentos, sentimentos e de atitudes. Parece coisa de ficção científica do mal, não é?

Mas o que leva a você agir de certa forma no Twitter? Pergunte-se vez ou outra. Talvez perceba que não é você quem está no controle da sua própria arroba, que até estampa o nome que você escolheu, mas que, basicamente, reproduz o que outras pessoas querem. Seja pela promessa de fama, seja pela recompensa de hitar ou pelo prazer de concordarem com você.

Compartilhar o seu dia a dia com seus 200 seguidores pode não ser tão ruim afinal.


Pedro Duarte é editor-chefe no NerdBunker. Trabalha com jornalismo cultural e tecnologia há dez anos. Já colaborou com publicações diversas e palestrou em eventos em todo o Brasil sobre jornalismo, cultura pop e internet. É autor de três livros. O mais recente, Gastaria Tudo com Pizza, saiu em dezembro de 2019, pela editora Pipoca & Nanquim.