O Grande Truque | Crítica

Saturday, 7 de June de 2008, por Mário "Fanaticc" Abbade

O Verdadeiro Mágico é Christopher Nolan.

Em Hollywood, basta surgir um projeto interessante, que ele logo acaba se tornando dois. As idéias parecem nascer em pares nas cabeças dos executivos norte-americanos. Desta vez, o tema em questão é a mágica. “O Ilusionista” saiu na frente nos Estados Unidos, mas O Grande Truque (The Prestige, 2006) será o primeiro a aportar no Brasil. Dirigido pelo talentoso Christopher Nolan, o filme é uma batalha sem vencedores sobre dois mágicos obcecados em atingir o truque sublime. O único vencedor dessa guerra é o público, que sairá maravilhado com uma história fascinante e interpretações impecáveis. Ao mesmo tempo provoca uma reflexão de até que ponto se deve cruzar todas as fronteiras possíveis e imagináveis para se alcançar um objetivo. Como em qualquer guerra, uma vez iniciada, ela perde o controle. Não interessa quem fez o quê primeiro. Essa luta interminável nos remete ao “Os Duelistas” (1977), filme do cineasta Ridley Scott. Mas se no filme de Scott a honra era o combustível, aqui os sentimentos são os menos nobres possíveis.

No centro da batalha criada por Nolan, estão os mágicos Robert Angier (Hugh Jackman) e Alfred Borden (Christian Bale). É a época vitoriana na Inglaterra, um período recheado de mistério e nebulosidade. O filme inicia com o julgamento de Borden acusado de matar Angier. A parti daí são apresentadas as peças de um intricado quebra-cabeças que levou a essa tragédia. Mas da mesma forma que as peças vêm misturadas dentro da caixa do brinquedo, a trama as apresenta fora de ordem cronológica. Cabe ao espectador encaixá-las no momento certo. Descobrimos que Angier e Borden eram amigos e parceiros em um número de mágica. Em uma das apresentações, acidentalmente, a mulher (Piper Perabo) de Angier morre. Ele culpa Borden. Desse momento em diante, os dois começam a sabotar as apresentações de mágica um do outro, mesmo que isso signifique provocar danos físicos. Ambos entram em uma corrida desesperada de destruição. Suas carreiras chegam a ter um papel secundário. O objetivo principal é roubar os segredos de palcos um do outro. As armas são segredos, mentiras, traições e ilusões.

Essa munição acompanha um forte elemento humano. Robert Angier é um verdadeiro showman. Um mágico de entretenimento que consegue dialogar com o público. Borden é um verdadeiro gênio. Mas não consegue ter a mesma presença de palco que seu rival. Se Angier é um homem refinado e bem apessoado, Borden é a sua versão tosca. E até nisso o filme é brilhante. O espectador torce, mesmo que inconsciente para Angier. Mas vale dizer que não é uma batalha entre o bem e o mal. São diferentes lados da mesma moeda. É justamente na belíssima interpretação de Hugh Jackman e Christian Bale que essas diferenças são acentuadas.

Fica até a impressão de estarmos vendo uma luta do Wolverine e do Batman, personagens imortalizados respectivamente por Jackman e Bale. Ao contrário de Bale, a cada nova cena Jackman cativa o publico. Já sabíamos do enorme talento de Bale por seus filmes anteriores. Mais uma vez que incorpora um personagem de sua inesquecível galeria. Um ator que sempre teve um dialogo intimo com produções artísticas e independentes. Mas definitivamente, quem surpreende é Jackman. Em “A Fonte da Vida” ele já tinha presenteado o publico com uma atuação brilhante. Com Angier ele sacramenta de vez ser um ator bastante talentoso. Basta ter um diretor que não queira simplesmente apostar em sua condição de símbolo sexual.

No meio do combate temos contato com as relações profissionais e pessoais de ambos os protagonistas. Michael Caine faz Cutter, um engenheiro por trás das ilusões apresentadas por Angier. Caine esta sublime no papel. Nolan inclusive usa partes de sua narração para dar uma espinha dorsal ao filme. Como de costume, Nolan desenvolve bastante os personagens masculinos, deixando os femininos em segundo plano. Mas isso não impediu que Rebecca Hall no papel de Sarah, a esposa de Borden, chame a atenção como uma mulher sofrida e desesperada. Scarlett Johansson interpreta Olivia.

É um personagem tirado da estética do filme noir. Nolan já demonstrou ser um adorador do gênero sempre inserindo os temas da traição e obsessão em seus filmes. Johansson faz a mulher fatal que ficará entre Angier e Borden. Mas o verdadeiro roubador de cenas é David Bowie no papel do cientista Nikolas Tesla. Ele esta irreconhecível e magnífico. Tesla realmente existiu e era um cientista que trabalhou com eletromagnetismo. Ele acreditava que a ciência podia alterar o tempo, o espaço e a gravidade. Thomas Edison era seu rival. Notamos até uma metáfora das brigas entre os dois cientistas em Angier e Borden. Bowie ainda tem a colaboração de Andy Serkis (Gollum/Smeagol em “O Senhor do Anéis” e o gorila em “King Kong”) fazendo Alley, seu assistente.

O elenco pode desenvolver com perfeição seus personagens, devido ao ótimo roteiro escrito por Nolan e seu irmão Jonathan baseado no best-seller de Christopher Priest. Jonathan escreveu o conto que originou o roteiro de “Amnésia”, também roteirizado e dirigido por Nolan. Da mesma forma, O Grande Truque é recheado de reviravoltas, em que o público é enganado na mesma forma que seus protagonistas. A história é contada por diferentes ponto de vistas. A transição entre essas narrativas nunca são apresentadas de forma clara. São flashbacks dentro de flashbacks que requer atenção redobrada. Um intricado jogo de gato e rato, ou melhor, de rato para rato. O inicio é um pouco truncado, mas conforme vai se desenvolvendo, Nolan cria um elemento de curiosidade sobre as motivações dos personagens. Cada mistério é permeado com um alto grau de ilusão. A única coisa verdadeira são alguns péssimos sentimentos humanos: inveja, competição e vingança. Uma rivalidade construída em cima da tragédia. O visual e as técnicas utilizadas corroboram essa intenção. Talvez fosse a maneira de fazer o público acreditar no inacreditável

A melhor definição para o filme reside justamente no inicio narrado pelo personagem Cutter. Ele está explicando para uma pequena menina sobre os 3 atos que compõe a mágica. O primeiro é a promessa, em que o mágico lhe mostra algo comum, mas que provavelmente não é. O segundo é a virada, em que o mágico transforma o comum em algo extraordinário. O terceiro é o truque (no original “the prestige”). É chamado dessa maneira, pois não adianta tentar descobrir o segredo. Ele não será revelado. Nolan faz exatamente isso durante toda a narrativa. Ele estruturou seu filme como fosse um truque de mágica. Cineastas são como mágicos. Eles também manipulam o espectador com a intenção de entreter e enviar uma mensagem. Fica a nítida impressão que o verdadeiro mágico aqui é Nolan. Mas calma, para deleite do público, ele revela o truque no final.