Bate-papo com Vin Diesel

Wednesday, 18 de March de 2009, por Fábio M. Barreto, de Los Angeles

Vin Diesel pode surpreender numa conversa. Marcado como ícone de ação, esse ator nova-iorquino é sempre reverenciado por seus colegas de elenco e, diferente de atores politicamente corretos, não tem medo de expor seus erros. Vin é um belo exemplo de gente que muda completamente quando os holofotes se acendem e as câmeras começam a filmar.

Longe do valentão das telas, ele mostra por que é idolatrado por Michelle Rodriguez e como consegue inserir tanto carisma em alguns de seus personagens. Sua voz não é cavernosa ou intensa como a de seus personagens, os braços não param de mexer – como todo descendente de italiano que se preze – e não há uma palavra que saia de sua boca sem uma certa reflexão.

É uma surpresa atrás da outra. Conversei com o astro depois assistir ao novo Velozes e Furiosos, e, claro, consegui, com exclusividade, informações sobre o próximo filme de As Crônicas de Riddick. Confira e, dessa vez, quem começou falando foi ele. Com um sorrisão largo e toda a empolgação de pai coruja, Diesel sentou-se à mesa já falando sobre sua filha.

Quando vi meu anjinho pela primeira vez, algo muito esquisito aconteceu: ela tinha os olhos do Riddick. Medo, muito medo! Depois isso mudou, mas fiquei cabreiro.

E você conseguiu mesmo manter o segredo em torno do nascimento dela, hein?

Não contei para ninguém que ela nasceria. Saí do set e depois esperar umas oito horas (risos) e, no exato momento em que cortava o cordão umbilical, já estava uma hora atrasado para o trabalho. E aí saí correndo e, no meio de tudo isso para trabalhar.

Por quê o sigilo?

Não queria minha filha chegando nesse mundo com câmeras para todos os lados. Não podia deixar que os paparazzi e outros curiosos me roubassem esse momento sagrado e extremamente íntimo. Essa perspectiva me transformou numa pessoa muito protetora e por isso resolvi não contar para ninguém antes do parto.

Na manhã seguinte, tive uma reunião com a chefe do estúdio e ela me disse, toda feliz e espalhafatosa, “eu teria te dado a semana de folga, ter um filho é maravilhoso!”. Mas eu sabia que se tivesse contado, nunca teria entrado naquele hospital com toda a confiança e tranqüilidade que me guiou naquele momento. Foi tudo normal e era o que eu queria.

Você acredita em casamento?

Acho que a idéia ou a instituição do casamento requer uma grande discussão, envolvendo todo mundo, se possível, sobre “até onde queremos continuar uma sociedade baseada no casamento?”.

Não sei a resposta. Acho que funciona em alguns casos, Obama, por exemplo, não seria quem ele é hoje não fosse pelo casamento. Porém, vemos cada vez mais casos de pessoas que optam por não se casarem. Isso não nos diz algo? Não gosto de falhar nas coisas e com uma taxa de divórcio em torno de 56%, precisamos pensar.

Como você mantém o equilíbrio na sua vida?

Sempre foi complicado gerenciar essa vida pública com minha vida pessoal. De certo modo, nunca tentei fazer isso, aliás. Sou reservado, fui acusado de ser um recluso e coisas do tipo.

Não danço conforme a mídia. E talvez seja pelo fato de que meus modelos também não faziam isso, então, conforme eu crescia – sempre sonhando em ser um ator -, passei a admirar mais ainda seu trabalho, sem me distrair com fofocas pessoais.

Por exemplo, nunca soube muito sobre a vida pessoal de Robert DeNiro, ele não estava em cada canto de Hollywood, não apareceu na capa da Vanity Fair ou da People quando se casou e etc. Isso tudo permitiu que seus papéis tivessem mais integridade.

Mas agora é mais difícil fazer isso.

Absolutamente. Hoje em dia, um telefone pode gerar muito conteúdo. Se pensarmos que boa parte do noticiário da TV é baseada em imagens amadoras feitas por telefones celulares – não estou falando de câmeras amadoras como antigamente, são apenas telefones! – ou câmeras portáteis.

Isso sem falar do YouTube. No passado de Hollywood, Carmem Miranda ou Clark Gable não precisavam se preocupar com o que faziam dentro do supermercado ou no McDonalds, pois sabiam que não havia equipamento para registrá-los em situações cotidianas.

Hoje em dia, o tipo de cereal matinal que eu compro pode virar notícia. É insano. Entretanto, o verdadeiro medo que tudo isso gera não é causado pelo fato de se preocuparem com o tipo de cereal, mas sim por esse exibicionismo desregrado e fora de foco. As pessoas não se contentam apenas em acompanhar a vida de outro ser humano, elas se entretêm com essa falsa sensação de relevância que o trabalho pode nos conferir, mas que, na verdade, não existe.

O fato de você se manter alheio a isso influencia sua capacidade de diferenciar tão bem um personagem do outro?

É um dos fatores, sem dúvida. Prefiro passar mais tempo com meus personagens do que com essa badalação. Meu envolvimento é tão grande que, em alguns casos, preciso esperar dez anos para voltar a ter contato com eles. É o caso de Dominic Toretto. Entendia esse personagem como algo finalizado, portanto parti para outras praias.

E qual a razão de retomá-lo agora?

O dinheiro é bom, claro. Mas se fizesse isso por dinheiro, estaria milionário fazendo todas as continuações que me ofereceram ao longo da minha carreira. Voltei por algumas razões. Uma delas, acredite se quiser, foi ter trabalhado com Sidney Lumett (que o dirigiu no drama sobre máfia Find Me Guilty). Embora eu pareça ser um ator de filmes de ação, comecei no teatro e fui treinado como todo ator. Meu pai ensinava teatro em Nova Iorque, então era inevitável.

Mas se eu ficasse fazendo filmes desse tipo até dizer chega, talvez nunca tivesse a oportunidade de trabalhar com alguém como ele, que sempre foi um de meus heróis, coisa que pouca gente percebe. Fazer esse filme me deu bastante liberdade de voltar a pensar na franquia Velozes e Furiosos, pois permitiu mostrar outro aspecto da minha atuação.

A outra coisa foi meu alto nível de exigência em termos de roteiros. Muita gente insistia para que eu fizesse aquela ponta em Desafio Tóquio, mas não fazia sentido para mim, afinal, o que ele estaria fazendo no meio no Japão sem os outros personagens e só no fim do filme?

E o que te fez mudar de idéia?

Meu instinto. Fiquei pensando no quão interessante reintroduzir a idéia de Dom nessa série e ver o que acontecia. Mas ele precisava ter seu próprio espaço, como se aquele momentinho fosse algo a parte do resto do filme. Mesmo assim, precisei de muito autoconvencimeto antes de aceitar o papel.

Cheguei à conclusão de que não poderia ser tão exigente com o roteiro inteiro, se meu trabalho seria apenas focado naquele final. O personagem falou mais alto, afinal, não posso ser tão possessivo com uma figura que foi aceita de forma tão positiva e definitiva pela cultura do cinema.

É aquela coisa, mesmo tendo sido incluído depois que o filme estava pronto, era uma questão de ar público o que o público queria.

O que, afinal, é o trabalho de um ator. Certo?

Perfeitamente. E muita gente veio dizer: “não dou a mínima para saber o que ele estava fazendo ali e por que diabos resolveu aparecer só no final, mas quero ver Dom novamente!”. O público tem prestigiado Velozes e Furiosos há anos e se perguntam “onde está Dom?”, então merecem essas surpresas e poder vê-lo, mesmo que seja só um pouquinho. É o direito deles.

Mas precisa existir uma razão maior que demanda de público ou seu autoconvencimento. Qual foi o verdadeiro motivo por trás disso tudo? Se não foi dinheiro…

Ok, vou contar. Muita gente da Universal não sabe disso. Fiz aquela ponta sem ganhar um centavo, absolutamente nenhum dinheiro. Participei do filme por causa de uma música.

Música?

Explico. Disse a eles: “vou participar, contanto que Dom seja reinserido com uma música específica”. Ninguém entendeu nada e fizeram a mesma cara de interrogação que você está fazendo. Falei diretamente com a presidente da Universal sobre isso e eles concordaram.

Escolhi uma música que ouvi nas ruas da República Dominicana, durante uma de minhas viagens para abrir uma escola de cinema, parte da Global Film Foundation. O presidente me pediu para ajudar a aumentar o mercado cinematográfico lá, então a primeira coisa foi criar a escola. Meu pai ensina cinema na NYU (New York University), então pudemos inserir esse currículo lá.

Acabamos de filmar Los Bandeleros, curta-metragem que faz a ponte entre o primeiro Velozes e Furiosos e o novo filme, e os alunos dessa escola realizaram o filme. Foi fantástico. Então, a música – chamada Los Bandeleros, de Dom Omar e Tego Calderon – foi a razão. Não faz o menor sentido Dom estar em Tóquio e, ainda por cima, com uma trilha sonora em espanhol. Mas tudo vai fazer sentido agora.

E também já serve como ponto de partida para o novo Velozes e Furiosos…

O novo filme vai focar numa crise de combustíveis na República Dominicana. A situação está complicada e é praticamente impossível conseguir gasolina para passar o fim de semana sem pagar uma fortuna. E é aí que Dom e seus amigos entram na história. É ali que os reencontramos, roubando combustível.

Em que pé está Hanibal? Foi cancelado? É seu sonho, não?

Gente de sucesso diz isso: se você não pode fazer tudo que quer, faça o que puder. Estou fazendo uma série animada sobre Hanibal. Sou fã de Bashki, Frezeta e adoro animação.

Então, essa é a minha chance de animar algo animado. Essa animação vai servir como prequel do filme. Já o filme, nunca parou de ser produzido. O problema é que em Hollywood, aqueles projetos do coração são os que demoram mais tempo e são os mais difíceis de acontecer.

E quando as pessoas ficam com medo de um orçamento de US$ 200 milhões, metade do caminho é convencer os executivos de que não é tão caro assim. O filme está passando por esse momento. Espero que a série animada seja prova suficiente de que meu comprometimento com o filme nunca tenha esmorecido.

Você comentou que escolhe seus roteiros com muito critério. Mas como podemos entender isso ao passo que você escolhe algo tão bom quanto As Crônicas de Riddick, mas, ao mesmo tempo, erra absurdamente com Babylon A.D.? Pelo menos a meu ver, erro…

E você está certo. Embora não seja o modus operandi do mercado, vou responder a verdade. Às vezes, você resolve desviar um pouco seus conceitos do caminha que trilha normalmente para buscar novidade. E isso pode voltar e te incomodar pelo resto da vida. Literalmente.

Podia ter sido mais exigente com Babylon AD, sem dúvida. Não estávamos prontos para filmar quando começamos. Havia uma bola de neve formada antes mesmo do primeiro dia de produção e aconteceu de estarmos ali, prontos para filmar, mas sem as condições ideais – especialmente em termos de roteiro – para fazer o que realmente gostaríamos.

Em Hollywood, quando é um grande estúdio, eles exigem mais nesses aspectos e as chances de que algo assim aconteça são melhores. Em Babylon AD, trabalhei fora de Hollywood, intencionalmente.  Não me arrependo, pois foi uma oportunidade fantástica de aprendizado. Embora o filme não tenha sido um sucesso, meu pai me deu um dos melhores elogios até hoje por esse trabalho, então teve seus momentos.

Para fechar, quando Riddick volta ao cinema?

(pausa) Estamos a caminho do Subverso e estou cansado de ser bonzinho (risos). Não vamos fazer essa jornada com censura livre, pode apostar. Vamos ao Subverso com apetite para sangue. Eu e David Twohy estamos avançando rapidamente com o filme.

Ele está finalizando o roteiro e decidimos muito do que vai acontecer. Pretendemos ter uma história tão empolgante quanto a de As Crônicas de Riddick e contada com o mesmo clima de Eclipse Mortal.

Vai produzir esse novo filme também?

Você gosta quando eu produzo filmes, hein?

Velozes e Furiosos ficou bom, então por que não? ;)

Sim, vou ser produtor do novo filme de Riddick e acredito que conseguiremos dar um tom assustador a esse Subverso. Agora é aguardar e conferir.

Mais entrevistas em breve aqui ou no SOS Hollywood!