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Tokusatsu e não abro!

Vai dizer que você nunca parou para ver um seriado japonês?! De National Kid a Power Rangers, dos anos 60 até hoje, eles fazem sucesso entre a garotada e alguns marmanjões também. Ou você não ficou maluco com a primeira morte de Jiban? Torcendo pelo retorno do Ultraman à Terra? Doido para ver o final de Jiraya ou perturbado com a macumba o feitiço que aprisionava o Jaspion?

Vamos, então, sem nehuma pretensão, dar um giro pelos principais seriados live action japoneses, os Tokusatsu, seguindo uma tradicional divisão de “famílias” e seus principais personagens:

HENSHIN HERO

Começamos por um dos mais gerais e antigos gêneros de tokusatsu. Os heróis henshin são aqueles que precisam de uma transformação para se tornarem super.

NATIONAL KID

O principal expoente dessa família de heróis. Produzido pela tradicional Toei Company em 1960, o seriado foi encomendado pela empresa que viria a ser a Panasonic, na época National Eletronics (daí o nome do personagem), para alavancar as vendas. Fez mais sucesso no Brasil do que no Japão e acabou marcando uma geração. Sua luta contra os Incas Venusianos ou contra os Seres Abissais tinham muito de arte marcial que consideraríamos totalmente galhofa hoje. Assim como as roupas espaciais e o modo “pássaro planador” de voar.

LION MAN

Meio faroeste, meio samurai, Lion Man se passa no Japão feudal (?) e conta a história de Dan Shimaru, um jovem samurai que consegue se “transfigurar” num felino (?!), voando com seu jato propulsor (?!!) a base de uma pólvora especial (?!!!). Ok, o ano era 1973 e não podemos dizer que não era uma tentativa original.

CYBERCOP

O futuro era 1999 e lá policiais de elite usam armaduras tecnológicas para combater uma organização criminosa chamada Destrap, cujo aparente controlador é um computador chamado Fuhrer (!), na verdade um fantoche do Barão Kageyama, seu verdadeiro líder. Os Cybercop (é assim mesmo, no singular) eram cinco policiais que usavam as unidades Júpiter, Marte, Saturno, Mercúrio e Vênus (que seria da policial Tomoku, mas que não chegou a ser construída). O enredo muito bem fechado chegou a ter um interessante plot twist no meio envolvendo um dos seus inimigos, chamado Lúcifer. Foram 34 episódios produzidos pelos estúdios Toho, entre 1988 e 1989.

ULTRAMAN

Pela imensa gama de heróis Ultra, tornou-se quase um gênero sozinho. Poderia, claro, ser encaixado em uma das outras famílias, mas os Ultra foram os mais populares heróis tokusatsu do Japão, continuando a ser produzidos desde a década de 60 até hoje.

ULTRAMAN

Um alienígena vindo da galáxia M-78 choca acidentalmente sua nave com a do oficial Hayata, da Patrulha Centífica. Hayata morre, mas ressucita ao receber a energia vital do alienígena, assim como a sua Cápsula Beta, artefato catalizador com o qual Hayata se transforma no Ultraman. Quem não se lembra do desespero que dava quando o timer colorido colado no peito do Ultra começava a piscar – o que indicava que a bateria estava indo para o saco – e obrigava o herói a voar até o sol para recarregar?!

ULTRASEVEN

Vindo da mesma galáxia – M78 – Ultraseven vem à Terra especificamente para combater monstros espaciais, assumindo o nome de Dan. Contam que o episódio número doze foi proibido no Japão por fazer menção a bombas atômicas, o que ainda era uma ferida demasiado dolorida para os nipônicos. Foi o terceiro na cronologia de Ultras (Ultra Q – 1966, Ultraman – 1966, Ultraseven – 1967).

SPECTREMAN

E qual era aquele cujo vilão era um macaco loiro-chanel? Spectreman! Era para ser uma cópia tosca dos Ultra, mas a P-Production conseguiu tornar Spectreman um clássico, graças ao roteiro mais humano e chamativo. Kenji, seu nome terráqueo, se alista no Grupo Anti-poluição e passa a defender a Terra dos monstros criados e manipulados pelo mutante símio Dr. Gori – cientista genial e maluco, cuja dublagem no Brasil era feita por ninguém menos que Carlos Seidl, o Seu Madruga do Chaves – e seu assistente gorila, Karas – voz de Potiguara Lopes, o Professor Lingüiça, digo, Professor Girafales. Ah, a Nebulosa de seu povo, os Dominantes, era a 71 (número que também foi o ano de sua estréia no Japão).

Obs.: As classificações se entrecruzam e não são definitivas. Os Ultras e o Spectreman, por exemplo, podem ser encaixados na categoria Kyodai Hero, que engloba os heróis que podem ficar gigantes para combater monstros idem.

KAMEN RIDER

Ou Motoqueiro Mascarado, traduzindo para o português, é outro personagem que de tão famoso tornou-se quase um gênero. Foi criado pelo lendário Shotaro Ishinomori para ser a princípio um mangá, mas em 1971 a Toei Company produziu o seriado. E pegou. Foram nada menos que 93 episódios em três anos e mais de quinze séries sucessoras com novos Kamen Riders.

KAMEN RIDER (original)

Takeshi é capturado por uma organização criminosa chamada Shocker e submetido a uma cirurgia que iria transforma-lo num soldado cibernético. Antes de sofrer uma lavagem cerebral, ele acorda e foge, não sem levar consigo suas novas capacidades, que usa na luta contra a organização. Nasce o Kamen Rider (que mais tarde se chamaria “número 1” , pois outro garoto é sequestrado e salvo também na hora agá, assumindo o posto do primeiro e virando o “número 2”). Foi produzida de 1971 a 1973.

BLACK KAMEN RIDER

Fãs de tokusatsu que me perdoem, mas a “inversão” da palavra “black” no título em português ficou bem melhor. No Japão, Kamen Rider Black, foi produzido já entre 87 e 88 em 51 episódios, mais dois filmes. O enredo era um pouco melhor. Os irmãos de criação Issamu e Nobuhiko são sequestrados pelo culto Gorgom, que os submete à cirurgia que os transformará em Imperadores Seculares. Issamu escapa antes da tradicional lavagem cerebral, mas não consegue salvar seu irmão, que se torna Imperador Secular, nomeado Shadow Moon, seu arqui-inimigo. Chegaram a chamar o personagem de Blackman por aqui e aí eu concordo que pisaram na bola…

METAL HERO

Talvez o gênero de maior sucesso por aqui. Como o nome diz, trata-se de um herói que veste uma armadura de metal, aço ou qualquer liga que o valha, venha ela do espaço ou não, e que pode pilotar uma nave que se transforma em robô gigante, que ele também pilota. Lembrou de alguém?! Então lá vai:

JASPION

Ok, Jaspion merece uma coluna à parte, mais detalhada, por ter sido o verdadeiro precursor da onda japonesa, seja de seriados ou animes, que se viu depois por aqui. Por hora, basta saber que seus episódios foram produzidos entre 1985 e 1986, pela Toei Company (os caras não erram nunca) e que o nome original do personagem era Juspion, uma junção das sílabas iniciais e finais da expressão justice champion. Volte sempre e você verá uma coluna dedicada especialmente ao guerreiro prateado, seu mega robô-nave, Daileon, e seu inimigo mortal que era os córneos do Darth Vaider, Satan Goss.

JIRAYA

Todos os heróis japoneses carregam um pouco da cultura samurai em si, mesmo que inconsciente. No entanto, em Jiraya a cultura samurai e ninja é referência totalmente descarada. O órfão Toha Yamashi recebe de seu mestre e pai de criação, Totsuzan Yamashi, a missão de proteger Pako, o tesouro espacial (ajudando a guardar a metada da escritura que revela onde está escondido o tesouro) e lutar contra os Feiticeiros, clã de ninjas comandado por Oninin Dokusai. Para isso, Jiraya tem de aprender a controlar o seu poder interior e a manejar a poderosa Espada Olímpica (originalmente Jikkou Shinkuu Ken, que quer dizer algo como Espada do Vácuo Luminoso Magnético, vai entender o “Olímpica” em português…). Quem não se lembra de Jiraya treinando para cortar seu reflexo no espelho?! Outro sucesso da Toey Company, produzido entre 1988 e 1989, com 50 capítulos.

JIBAN

Um policial morre defendendo a cidade de criminosos, mas é “ressucitado” e “reconstruído” como um ciborgue. Robocop? Não, Jiban! O atrapalhado policial Naoto Tamura continua sua luta contra os monstros da Organização Biolon e segue em busca da garotinha Ayumi, que revela-se – spoiler! – sua irmã. Outra da Toey Company, produzida de 1989 a 1990, e transmitida quase que simultaneamente para Japão e Brasil, veja você! Um dos episódios mais dramáticos e marcantes é aquele em que Jiban é covardemente atacado por três inimigos, perde um braço e morre (calma, ele acaba ressucitado ainda mais armado e poderoso). Curiosidade: apesar de parecer um plágio de Robocop, a idéia de um ciborgue criado a partir de um humano não é tão nova assim. Desde Frankstein eles estão aí. Há, inclusive, um anime japonês chamado O Oitavo Homem, da década de 60, que trata de um ciborgue criado a partir de um policial. Toma aí, Robocop!

SUPER SENTAI

São as séries baseadas em equipes de três ou mais (geralmente cinco) integrantes. Normalmente liderados pelo guerreiro vermelho, cada integrante tem uma habilidade e uma cor. Para vencer os inimigos precisam sempre se juntar, seja cada integrante, ou seus robôs, criando um robô só (chamado mecha), muito maior e mais poderoso. Um dos mais famosos no Japão foi o Google V (baseado em pedras Rubi, Esmeralda, Safira, Diamante e Opala), mas que não fez tanto sucesso por aqui quanto:

CHANGEMAN*

O Esquadrão Relâmpago Changeman, em conjunto com Jaspion, ajudaram a abrir o mercado brasileiro para os tokusatsu. Até música do Balão Mágico foi feita sobre eles. O time era baseado em animais míticos: Dragão (vermelho), Grifo (negro), Pégaso (azul), Sereia (branco-rosa) e Fênix (rosa-branco) e, juntos, os changemans compunham o Change-Robô, mecha que lutava contra os monstros gigantes que assolam Tóquio.

Suas armas eram as pistolas lasers que viravam espadas e escudos (cuja junção em formações bumerangue ou pentágono poderia resultar num ataque mais poderoso) e a Power Bazuca, manejada pelos cinco changemans ao mesmo tempo. A personalidade dos changemans era bastante definida e marcante. O Change Dragon, por exemplo, era o líder e, por isso, chegava a ser triste de tão sério. O Change Grifo era o galã, sempre penteando o cabelo displiscentemente. O Pégaso era o mais infantil e carismático (quem não se lembra dele derrotando um dos inimigos com a sua cantoria desafinada?!). A Sereia é a musa perfeita e a Fênix, a revoltada. Foram produzidos 55 episódios entre 1985 e 1986, por uma empresa pequena que você nunca ouviu falar chamada Toei Company…

FLASHMAN

A partir daqui foi tudo mais do mesmo. Os Flashman eram crianças terráqueas que foram raptadas e levadas para os confins do universo. Salvos pelo povo Flash, passaram seus vinte anos treinando e se aperfeiçoando, um em cada satélite do planeta. A característica de cada guerreiro está baseada no satélite em que treinou, mas isso não importava muito quando eramos crianças.

O que valia mesmo era que o líder era o Red Flash, o mais legal era o Blue Flash, tinha o engraçado Green Flash, a coadjuvante Pink Flash e a inteligente Yellow Flash, que é a única a descobrir quem eram seus verdadeiros pais. Arrebatou muitos fãs ávidos por estruturas parecidas com a dos Changeman, por ser mais simples e envolvente. Os Flashman foram produzidos entre 1986 e 1987, por você sabe quem…

POWER RANGERS

Um salto de sete anos e chegamos aos anos 90. Mais especificamente 1993, quando Haim Saban, empresário egípcio, comprou os direitos de um dos muitos tokusatsu da Toei, o Jyuranger, baseado em dinossauros (que estavam em alta, após Jurassic Park). Muito fã de tokusatsu o critica até hoje pela guinada que ele deu. Para ganhar o público americano, Saban reescreveu o seriado, trocando os atores japoneses por atores americanos, e deu a ele o nome Mighty Morphin Power Rangers.

O sucesso foi estrondoso e outra grande leva de fãs de tokusatsu o elogia por ter inserido no mercado americano um gênero de série para o qual torciam o nariz. Prós e contras colocados, a verdade é que os Power Rangers tornaram-se a série japonesa (ou meio japonesa) de maior sucesso no mundo. Tanto que desde 2002 a Disney comprou os direitos e continua produzindo até hoje. Também é verdade que após tantas trocas de elenco (eu mesmo, lembro malemá do primeiro), a coisa se tornou meio maçante, praticamente uma Malhação.

As primeiras temporadas, que podemos chamar de “clássicas”, eram as mais interessantes. Temos a aparição de Zordon, espécie de mestre tridimensional, que recruta os colegiais Jason (vermelho), Zack (preto), Billy (azul), Trini (amarelo) e Kimberly (rosa) para defender a Angel Groove e o mundo. Vemos Rita Repulsa, a vilã, cair de seu exílio pronta para tentar dominar o universo. Temos o primeiro contato com as Moedas do Poder, catalisadores através dos quais eles “morfavam”, neologismo que pegou e que dava nome ao ato de se transformar em ranger. Conhecemos os Dinozords, os robôs gigantes de cada ranger. Eram o Tiranossauro, o Mastodonte, o Triceratops, o Tigre Dentes-de-Sabre e o Pterodáctilo. Juntos formavam o Megazord, o Zord mega-boga dos rangers. Durante a temporada, um ranger verde é convocado e enfeitiçado por Rita para destruir os Power Rangers, mas logo Tommy, seu nome humano, escapa e passa a integrar a equipe do bem, como o ranger verde.

É claro que a história vai muito além disso e continua até hoje com suas dezenas de variações (Turbo, Força do Tempo, Wild Force, Ninja Storm, etc), mas sem muita novidade. As primeiras temporadas foram as que deram origem a dois filmes e um sem número de jogos de video game e até fliperamas!

Então é isso! De National Kid a Power Rangers demos uma pincelada nas principais famílias de Tokusatsu e relembramos os heróis que fizeram nossa infância mais divertida. Mas não se engane, honorável leitor! Os seriados são clássicos, marcaram gerações, mas não passam na “regra dos 15 anos”! Portanto, NUNCA-JAMÉ tente assisitir novamente levando a sério como você levava no passado. Afinal de contas, uma bruxa cujo encanto era “berebekan katabanda, berebekan katabanda, berebekan katabanda… KIKERÁ!” assustou muito garoto medroso, mas hoje seria motivo de riso… Ou não!

* Nota do editor: Como alguém escreve sobre o Changeman e não cita o Guiodai? Imperdoável.